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terça-feira, 5 de março de 2013

Desabafo

Se você não puder me ajudar, sente-se ao meu lado e chore comigo.
Será mais confortante que um abraço e mais delicado que um beijo.

Sabem, gosto de desabafar aqui na Internet, postar imagens, vídeos e músicas nas redes sociais para tentar expor um pouco das minhas frustrações, mas a verdade é que nem isso eu consigo fazer corretamente. Eu gostaria de, pelo menos, ser organizado para escrever frequentemente em  um blog, ou para postar vídeos no youtube, mas este não sou eu. 


Então, afinal, quem sou eu?

Sou um cara rodeado de pessoas e, ao mesmo tempo, completamente sozinho. Tenho irmãs e uma mãe que se preocupam muito comigo e que me amam muito. Com certeza, se não fossem elas, eu já não estaria mais aqui não. É, aqui, no planeta terra mesmo. Não vejo muitos motivos para estar aqui, detesto-me como ser humano. 

Mas, voltando, quem sou eu? Sou um cara que no ensino fundamental sonhava em ser jogador de futebol. Até a oitava série eu tentei ser um bom goleiro, mas não sei, nunca consegui ter uma boa "reposição de bola", aliás, mesmo se eu fosse um boa promessa no esporte, o destino não deixaria que eu continuasse no ramo. Torci o tornozelo, peguei catapora e quebrei a patela do joelho esquerdo antes de alguns campeonatos. É, sempre antes de algum campeonato eu me quebrava. 

No ensino médio cheguei passei a imaginar como seria minha vida profissional e resolvi cursar Automação Industrial - grande burrada, já que nunca me dei bem com números. Foi no ensino médio que tive meu primeiro contato com a sociologia, a filosofia e coisas do gênero. Ingressei em uma vertente política do Partido dos Trabalhadores e aprendi muito sobre o nosso sistema. Acho que foi a época em que mais enriqueci como ser humano. 

Foi o período onde também fiz algumas amizades sinceras, onde eu sentava lado a lado de outros jovens que vinham de famílias importantes, ou não. A Tupy sempre foi um espaço plural. Alunos bolsistas da rede municipal e filhos de donos de grandes empresas da região estudando na mesma sala. A juventude é uma coisa linda mesmo, sem preconceito, comíamos pão com mortadela no almoço, alguns porque não tinham dinheiro para um almoço de verdade, como no meu caso, e outros por opção, talvez por amizade.
Enfim, foi no ensino médio que também comecei a participar de algumas manifestações populares, principalmente na luta pela gratuidade no transporte público. Comecei a entender algumas coisas sobre mobilidade urbana, sobre educação, saúde e ai por diante acho que não parei mais de me interessar pelo tema.

E foi neste momento que fiz a escolha mais idiota da minha vida, cursar jornalismo. Não vou culpar meus pais, ao contrário, eles me avisaram para não cursar jornalismo. Quer dizer, minha mãe me avisou, durante este tempo eu estava sem falar com meu pai. Eles haviam se separado há alguns anos e, já que sou um idiota rancoroso, resolvi ficar sem falar com ele. Enfim, aqui em casa nunca foi me explicado direito o que era um vestibular ou uma universidade federal. Eu não tinha muitas referências do que estudar para passar em um vestibular, ou de como funciona o ensino superior. Então me apeguei ao que estava mais perto, prestei vestibular para uma faculdade particular e me senti a pessoa mais feliz do mundo por ingressar em um curso onde eu poderia “ajudar o mundo”.

Poderia? Durante dois anos trabalhei como auxiliar de almoxarife em uma fábrica de parafusos. Isso foi logo depois de sair do curso técnico/ensino médio. Neste meio tempo entrei na faculdade. Fiquei um ano trabalhando em uma fábrica e estudando jornalismo. Há, esqueci, neste meio tempo eu noivei. É, engraçado né? Poisé, eu namorei uma menina durante uns três anos e noivei. Fiquei um ano noivo e, no final do primeiro ano de faculdade, terminamos. Foi o primeiro de muitos choques sentimentais que ainda viriam pela frente.

Enfim, os sentimentos renderão outro texto, esta aqui é só uma reflexão básica sobre uma vida desastrada, ou parte dela. 

Durante os quatro anos de faculdade fui uma pessoa muito feliz. Continuei minha aprendizagem sobre o mundo. Tive ótimos professores e inúmeros debates preciosos. Fui “presidente” de diretório acadêmico, DCE e atlética, embora não goste deste termo, “presidente”. Minhas ideologias políticas sempre caminharam mais ao lado do extremo parlamentarismo e do anarquismo. Sou a favor de uma sociedade sem hierarquias, por isso tentei trabalhar desta formas dentro dos movimentos em que autuei. Participei de congressos, tanto da UCE como da UNE. Conheci ainda mais a movimentação estudantil nacional. Gostei da experiência e fiquei amargo com as coisas que presenciei. Percebi o quanto o movimento estudantil está impregnado do “fazer política” segregado e corrupto que envolve nossos setores públicos. 

Acho que este foi o início do declínio dos meus ideais. Fiz estágios pela faculdade e consegui uma vaga em um estágio de um jornal local. Trabalhei muito e me dediquei, para sair do jornal e conseguir uma vaga em outro veículo impresso, em Jaraguá do Sul. Então, comecei a perceber a realidade das redações e da profissão em si. Comecei a ver que para ser um bom profissional você precisa abaixar a cabeça e dizer sim para tudo, assim como em qualquer outro ramo. 

Passei um tempo no jornal de Jaraguá e voltei para Joinville. Cheguei a trabalhar em uma vaga temporária no jornal impresso em que fiz estágio, mas fui demitido, sem saber o motivo concreto até hoje. Talvez tenha sido uma matéria em que falei da Frente da Luta pelo Transporte Coletivo e sua permissão jurídica para fazer protestos dentro do terminal. 

De lá até agora, não consegui mais empregos fixos. Com o dinheiro da rescisão comprei uma câmera e comecei a trabalhar com fotografia. Consegui alguns freelancers, no festival de dança, em casas noturnas, com bandas, entre outros. Passei a participar mais ativamente do cenário cultural. Percebi o quanto eu não me enquadro em na rotina trabalhista “comum”. Foi então que imaginei abrir meu próprio “negócio”. Já formado, fiz outra grande besteira, entrei em uma pós-graduação em História da Arte. Como se já não bastasse ter gasto uns 18 mil reais com uma faculdade particular e ficar devendo 12 mil para a Caixa (FIES), resolvi fazer uma pós em uma Universidade particular. 

Enfim, comecei a estudar esta tal de “Economia Criativa” e tive a ideia de montar um Coletivo Cultural. A ideia seria trabalhar com a área cultural, oferecer serviços, ser transparente, cobrar só o que realmente representasse meu trabalho e profissionalizar o setor. Legal, né? Pois bem, é só legal mesmo, porque até agora posso contar nos dedos o quanto recebi pela iniciativa. O que eu queria, né? Trabalhar com cultura em uma cidade industrial, onde não existe um envolvimento coletivo verdadeiro em prol da cultura. Além do coletivo, resolvi montar um associação de bandas, para tentar lugar por outro nicho do qual faço parte. Ahh é, não contei, tento até hoje ser músico. Não consigo, por isso sou baterista. Estou até estudando na Escola de Música Villa Lobos, de Joinville, mas provavelmente não vou terminar o curso, porque preciso de um emprego e o primeiro que aparecer fará com que eu tenha que largar o curso, que ocorre de manhã.

Enfim, estou tentando há um ano tocar o coletivo.  Às vezes aparecerem coisas legais e até reconhecimentos pelo meu serviço, mas a verdade é que as contas estão batendo na minha porta. Minha mãe faz o que pode para me ajudar, administrando a pensão que está prestes a ser cortada. O FIES precisa ser pago, e a pós, bom a pós que resolvi fazer talvez tenha que ser trancada. 

Semanalmente mando currículos e faço entrevistas, mas parece que ninguém tá muito interessado em dar trabalho à um cara tatuado, com piercings e que pensa socialmente. Aliás, em uma das entrevistas para o jornal impresso local do qual comentei, um editor perguntou: “Marcus, seu perfil é um pouco mais comunitário do que o comum, você não acha que isso poderia ser algum problema para o nosso perfil?”. É, talvez eu seja um pouco mais comunitário que o comum.

Também sou um pouco mais radical que o comum, sou um pouco mais sentimental que o comum, sou um pouco mais extremista que o comum e tenho um pouco menos de paciência do que o comum.
Nos últimos três anos, com o término da faculdade, com meu ingresso ao mercado de trabalho e com a turbulência de outros relacionamentos, a única coisa que percebi é que sou um total fracasso. Bla, bla, bla. Eu sei que existem pessoas em situações muito piores do que a minha, mas isso não muda o fato de que a “sorte” não gosta muito de mim. 

Eu realmente tento me organizar. Tento não pensar negativamente, mas este não é meu forte. Talvez eu devesse estar estudando inglês ao invés de estar aqui lamentando a vida. Talvez eu devesse estar escrevendo o roteiro de um filme, gravando um bom vídeo, aprendendo a tocar violão, mas não consigo. Acho que este é o meu momento “acomodado”. Talvez este seja o maior mal da sociedade, o comodismo. E eu sou um ser humano como qualquer outro, sou cômodo sim. Até tenho vontade de pegar esta câmera, sair pelo mundo, fazer fotos incríveis, mas não consigo sair desta cidade. Tem algumas coisas que me prendem aqui ainda. Acho que sou um grande covarde. A covardia gera um tipo de conforto, vocês não acham?

Sou um covarde, desempregado, prestes a jogar fora todo o conhecimento obtido na faculdade de jornalismo e na pós-graduação para entrar em qualquer emprego que pague minhas futuras contas. Não é vergonhoso trabalhar em algo simples, não mesmo. Fui peão de fábrica e eu era muito feliz. Só fico triste em ter gasto tanto tempo investindo em algo que não pode ser aproveitado. Sabem por quê? Por que não há espaço no marcado para jornalistas realmente críticos. Não há espaço para profissionais que desejem mudar a sociedade da qual participam. O jornalista é um dos seres mais revolucionários que existe, ou pelo menos deveria ser, mas os que conseguem emprego são aqueles ótimos subordinados, com o “sim” na ponta da língua. 

Enfim, não sei o que fazer, mas queria repartir um pouco disso com você. Caso tenha gasto tempo lendo este texto, é sinal de que talvez você se importe, ou pelo menos tenha interesse em minha vida. Então obrigado por isso. 

Bom, atualmente, tenho uma Associação de Bandas para tocar, uma chapa para Associação de Moradores para formar, um Coletivo Cultural para estruturar, empregos para me candidatar, uma pós-graduação para concluir e um mestrado para tentar. Tenho mais algumas desilusões amorosas pela frente, algumas festas para participar, algumas bandas para me divertir, alguns vídeos para fazer, milhões de projetos para dar errado, outros para me animarem. 

Tenho uma vida pela frente, mas preciso de algum sinal, entendem, algo que me motive, porque a situação está complicada. Sou ateu, então não vou pedir para que deus me aponte um caminho. No entanto, tenho torcido muito nos últimos dias para que minha vida tome um rumo, para que as coisas que faço certo deem algum resultado e para que todas as outras que fiz errado sejam consertadas. 

Tenho que ser perdoado por muita gente, tenho que perdoar algumas pessoas. Tenho que aprender a amar quem me ama e lutar por uma coisa de cada vez. Preciso de força e ajuda, você quer me ajudar? Aceito ajuda de qualquer pessoa, a qualquer hora. 

Se não puder ajudar, senta e chora comigo, que já será um bom começo.
Amo você. Amo vocês.