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quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Céu negro



Céu negro
Eu não procuro um paraíso
Muito menos um céu azul
Quero mesmo os vendavais
Quero que as nuvens lhe carregue

Um céu negro, nutrido pelo ódio
Quero que você perca o seu controle
Controle
Que que você perca seu controle.

Que as nuvens também produzam granizos
E que as pedras atinjam sua cabeça
Caia, deite, durma e não acorde.
Me vingarei através das águas
dos ventos e dos trovões.

E quanto você menos esperar
Estará sem controle
Controle
Que você perca o seu controle

21


21

Até 12 meses esperando a garoa
A terra, o homem e a luta
Venha sol, venha chuva
Já não estou mais isolado
Fui um Hércules, fui canudos
Fui inimigo da república

Meu drama agora é todo
Sou lodo, sou morno
Sou mais um no meio do povo
Preciso voltar e esbravejar
Dar razão a Euclides
Ser a base da nação
Voltar à solidão

Aqui não tenho bandeira
Vivo ordem, sou progresso
E agora a chuva...
Oh luta, tanta água
Deixa eu levar, só um pouco
Pro meu irmão e pro meu povo.

para a banda Nhanduti

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Nossa Própria Incopetência

Faz um ano e alguns dias que algo me marcou profundamente. Claro que devemos superar traumas e problemas que a vida nos impõe, mas há algumas coisas mal resolvidas que caem no esquecimento popular por culpa de alguns setores públicos ou por nossa própria incopetência, enquanto comunicadores.

Agora me sinto tranquilo para contar que, na época, eu não vi honestidade em nenhum depoimento oficial da polícia. Lembro de uma cena específica, onde o jovem acusado alguns dias depois foi sabatinado por um bando de jornalistas ignorantes, que perguntavam "Como você se sente depois de ter sido tão cruel e desumano" ou "Você ao menos chorou pelo que fez?", como se o crachá de jornalista service de ferramenta jurídica (ou até espiritual) para extrair confissões do acusado.

Até hoje eu não sei se este crime foi resolvido de verdade. No campo da comunicação, a busca pela factualidade faz com que você esqueça uma tragédia assim que outra apareça, como se a vida dos próximos fizessem parte de um jogo frenético e mórbido que chamamos de jornalismo diário.

Meus pêsames aos familiares, novamente. Lembro que após cobrir e escrever sobre o crime, a primeira coisa que fiz foi ligar para minha mãe, Elisa Cruz, para dizer que a amava. Por isso esta notícia me marcou profundamente. Percebi naquele instante o quanto somos reféns do jogo midiátido e o quanto estamos vulneráveis às atrocidades resultantes de um sistema problemático. 

http://www.clicrbs.com.br/anoticia/jsp/default2.jsp?uf=2&local=18&source=a3644907.xml&template=4187.dwt&edition=18877&section=887

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Vish

Depois de atravessar Joinville, do Itaum até um beco do São Marcos, conversei com alguns amigos e resolvi pegar o último ônibus do bairro para voltar para casa. A noite já estava meio chata, mas ainda era quinta, então não poderia ficar pior. Certo?

Eu pego o último ônibus do bairro, ele vai até um ponto final e estaciona. Descubro que tenho que esperar mais 25 minutos para o ônibus voltar para o centro. Então, o motorista pergunta: “Já te falaram de deus?”. Eu respondo em alto e bom tom: “Viiishhhhh”.

Explico que sou ateu e que já faz muito tempo que não acredito em deus. Ele me conta da história de um ateu que escreveu “Aqui deus não entra” em alguma coisa de ferro sobre seu túmulo, que foi rachado por um raio. Logo, deus existe.

Pergunto o nome do ateu, o local, a data do acontecido, mas, obviamente, ele não sabe me responder. Então ele começa a falar de um tal de ‘arrebatemento’ e diz que o fato de eu não acreditar em céu e inferno é obra de satã.

Resolvo ser calmo com o cara, deixando-o falar, e o melhor, tento argumentar com ele algumas coisas. Ele vê que eu rebato as teorias e prefere não falar mais, ao invés disso, liga o celular e me fez assistir vídeos da assembleia de deus por quase 15 minutos.

Ao final de cada vídeo ele me olha com uma esperança de comoção. Eu até respeito, mas em alguns momentos não há como segurar a risada, quando por exemplo, falam que Cazuza, John Lennon, Bom Scott, entre outros, morreram por não acreditarem em deus. “John Lennon disse que os Beatles eram mais famosos que deus, logo depois levou cinco tiros de um fã”. Com estas provas irrefutáveis, deus deve existir mesmo.

Depois dos vídeos, tento entender um pouco a lógica daquele motorista, tão empolgado em me converter.

Então pergunto: “Tá, só para entender. Vamos dizer que você nasceu em uma aldeia, que ainda não teve contato com nenhum tipo de religião. Você nasce, cresce, vive e depois morre. Nem teve chance de conhecer a Assembleia. Você vai para o céu ou inferno?”. Ele enrola um tempo, e depois lembra de uma passagem “sagrada” que diz algo sobre um tal de Enoque e Elias.

E ‘bla,bla,bla’ “depois que você morrer, mesmo vivendo lá na aldeia, você terá a oportunidade de aceitar jesus ou o diabo. Se você se converter, você estará ao lado de deus.”

Respondo: “Ok, se o lance é estar ao lado de deus depois que eu me converter, posso fazer tudo que eu quiser durante minha vida, e me converter quando velho, não? Ou melhor me converter depois que morrer, não é?”. Ele me olha uma cara muito engraçada, de desprezo e argumenta: “meu filho, você não está ouvindo o que eu estou dizendo, está no texto sagrado!”. Às vezes ele levanta o tom de voz, como forma de querer me emocionar eu acho.  Enfim, ele começa a falar que Jesus é o único que veio à terra, morreu, ressuscitou e fez sei lá o que.

Então eu perguntei:

- O que você acha de Buda?
- Buda não está na escritura sagrada, então ele não pode fazer nada por seus fiéis
- Você já parou para pensar em quem escreveu estes textos sagrados
- Foi deus meu filho, ele escreveu. Ninguém veio antes de deus, jesus e o espírito santo. Eles foram os primeiros a pisar na terra e escreveram como e o que devemos fazer
- Tá, pera.... Como assim eles vieram primeiro. Isso quer dizer que você não acredita na teoria da evolução? Não acredita em dinossauros, por exemplo? (Pasmei, não acreditei que ainda tem gente que pense desta forma. Os religiosos famosos dizem, ao menos, que a bíblia é uma história no sentido figurado, e que as passagens de adão, eva e sei lá quem mais são maneiras de explicar coisas que não podiam ser explicadas na época. MAS NÃO, ELE REALMENTE ACREDITA QUE NÃO HOUVE EVOLUÇÃO, NÃO HOUVE DINOSSAUROS)
- Não, não acredito nisso não. No texto sagrado está bem claro, que foi deus que criou o homem, e a mulher da costela e por ai vai.
- Tá, e os fósseis que são encontrados... Como você me explica a existência deles?
- Não sei te explicar, só sei que não existiu forma de vida antes de jesus.

Deu meia noite e ele precisou ligar o ônibus.  Justamente agora, que estava começando a ficar divertido, com todas as minhas perguntas.

Seguidos para o centro, e no caminho, eu explico que o papo foi bom, mas que ainda acho que existem outras coisas que podem ser feitas em terra, que substituem a religião e que também geram benefícios para a comunidade. O que me surpreende é que nestas últimas falas, comentei de projetos comunitários e de outras religiões que também desenvolvem ações sociais, entretanto, ele só argumenta dizendo que nada disso salvará as pessoas do final do mundo.

Noto que toda a motivação dele tentar me converter ou tentar compreender sua própria existência é motivada pelo medo, e nada mais. Enquanto ele fala da fúria de deus, eu falo da poluição global.  Então ele cita, novamente, algumas partes do Apocalipse (Obs: digitei Apocalipse agora, no google, e me apareceu a banda de rock prog [Apocalypse]. Então, desculpem, até tentei procurar algo sobre religião, mas outro deus, o google, me direcionou para bandas de rock, então isso também deve ser um sinal).

Quase chegando ao terminal, explico que o importante é alguém se motivar por alguma coisa, para elaborar algo socialmente relevante para sua comunidade. Ele me olhou com uma cara de quem não estava entendendo. Agradeci a tentativa mais uma vez, e desejei tudo de bom para aquele homem. Tomara que ele consiga se converter, ainda há tempo de todos se salvarem.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

O primeiro grande amor

A minha teoria é que o primeiro amor é o único grande amor que você consegue ter na vida. Acredito que seja assim porque na sua primeira grande paixão você ainda desconhece a dor do adeus, então vive o momento sem conhecer o amanhã. Depois da primeira dor, cravada na pele, você para de se doar, e quando constrói novamente uma história, já a escreve imaginando um determinado fim, tendo em mente o gosto do adeus. Ou seja, a experiência acompanha o apodrecer do corpo e cada dia vivido se transforma apenas em uma data neste calendário que separa você do "descanso eterno". E como diria Pessoa, "O homem é um cadáver adiado" e só.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Boa Noite

Aos poucos ele abre os olhos e tenta se acostumar com a claridade. Inclina-se um pouco no travesseiro para enxergar o resto do ambiente. Percebe que está sozinho, em seu leito. Em uma cama distante, há outro senhor, sentado, mas com os olhos fixos no relógio de parede, localizado acima da porta do quarto.

Depois de se acomodar, ele olha em volta e percebe que está tomando algumas medicações através do soro, compreendendo então sua situação de enfermo. Passam-se minutos e o homem sentado na maca murmura algumas palavras:

– A hora, a hora não passa. Faz uma meia hora que acordei e minha filha ainda não chegou. E você está aqui por que?

– Não sei ao certo, eu acho que passei mal depois do almoço ­ – respondeu, apenas por educação

– Almoço em família é assim mesmo, a gente come um monte, bebe, e esquece que não está mais na idade de fazer estas coisas. Quantos filhos você tem?

Por alguns instantes, a vida passa-lhe a mente, mas ele responde:

– Nenhum. Estava almoçando sozinho mesmo.

Neste momento, os dois ouvem alguns passos em direção ao quarto. A enfermeira abre a porta, apresentando os leitos à outra mulher.

– Pai! Era para você estar descansando – diz a mulher, dando passos um pouco mais ligeiros em direção ao senhor sentado na maca.

Após minutos de conversas e sussurros, as duas mulheres acompanham este outro senhor para fora do quarto. O que resta é o ambiente de roupas de camas brancas e paredes azuis.  Ele deita novamente, um pouco inclinado para o lado, observando a única janela do quarto. Era possível ver apenas a ponta de um galho de árvore, pois, provavelmente, o quarto estava no segundo ou terceiro andar do prédio. Tirando o verde das poucas folhas visíveis, o cinza do tempo nublado completava a triste pintura emoldurada pela janela.

Seus olhos conversavam com o resto do corpo, parecendo dizer que era hora de cochilar. Entre o sono e apreciação da janela, algumas pessoas começam a entrar no quarto. A visão estava um pouco desfocada, mas era possível ver os contornos e os trejeitos destes indivíduos que se acomodavam por ali. Uma destas pessoas se aproxima da cama. Ele continua deitado na mesma posição, mas a pessoa puxa uma cadeira e, já próxima da maca, pergunta:

– Faz tanto tempo não é? – ela então continua – Queria te pedir desculpa por não ter estado aqui antes. Você sabe, eu não pude vir antes, eu até quis, mas toda a situação em que se construiu minha vida não permitiu que eu vivesse qualquer tipo de aventura ao seu lado. Precisei ser coerente com as minhas necessidades, mas agora estou aqui, para te tranquilizar um pouco.

Com os olhos comovidos pela situação, ele apenas a observa e, por minutos, aprecia a pele intacta, imutável e macia, da mesma forma como a conheceu, durante a juventude. Cabelos escuros, meio ondulados e pele morena – Eliana fora o primeiro amor de sua vida. Linda, curiosa, mas fruto de uma família apegada ao elo do trabalho e dos ensinos religiosos. Foi Eliana que lhe apresentou o mundo, lhe apresentou a vida, o calor do corpo humano e o desgosto do primeiro adeus.

Com a mão um pouco trêmula, ele move alguns fios de cabelo de Eliana para trás de suas orelhas, apenas para observar melhor seu rosto. Definitivamente, estava igual ao primeiro encontro, tão linda quanto indecisa. Ela segura sua mão, dá-lhe um beijo na testa e despede-se.

Em seguida, outras pessoas se aproximam. Uma mulher senta-se na mesma cadeira, mas fica alguns segundos ao celular, aparentemente respondendo a alguma mensagem. Margareth, amiga, daquelas passageiras, com quem ele tomou algumas cervejas, conversou sobre a vida e raramente reencontrou durante sua trajetória. Simplesmente maravilhosa. Margareth é do tipo de mulher da qual não se consegue desgrudar os olhos. Amiga, mas com quem ele dividiu momentos de intimidade, angústia e carinho. Intensa, talvez esta característica possa definir Margareth.

– Olha, talvez eu não devesse estar aqui não – diz ela, após guardar o celular na bolsa – Vim com alguns amigos, fiquei sabendo que você estava por aqui e precisava de algumas visitas. Estou na cidade por estes dias, preciso resolver algumas coisas. Na verdade, estou até um pouco cansada de viajar por aí. Tenho morado em vários lugares por pouco tempo. Preciso me estabelecer um pouco.

Enquanto ela contava de suas experiências, ele apenas tentava lembrar dos motivos que os fizeram cruzar caminhos no início da vida adulta. Amante da boa música, Margareth adorava dançar, beber, fumar, rir, extravasar e iludir corações, mesmo que não fosse esta a sua intenção. Rosto tão belo, tão encantador, que não poderia expressar outra coisa se não um grande problema. Dias ao lado desta mulher significaram picos de amor e mágoa. Intensa, dos fios de cabelos às palavras pronunciadas.

– Enfim, acho que você não está muito em condições de ouvir tudo isso, não é? Gostaria de ter retribuído tudo aquilo que você fez por mim. Toda a companhia nos meus momentos ruins, mas não pude fazer isso por você. A culpa não é minha, é coisa do destino. Às vezes nos apaixonamos por pessoas que não podem nos recompensar. Continue sendo esta pessoa cheia de planos e atenciosa. Você ainda vai encontrar alguém que combine com você – diz ela, com um sorriso confiante, de quem já disse isso outras vezes, para silenciar outros corações, igualmente confusos.

Durante segundos, ele fica imaginando se seria muito abuso tentar se aproximar de Margareth, vontade não lhe faltava, ele deseja beijá-la, como antigamente, como sinal de compreensão, carinho e amor, mas acalmar-se-ia com um simples aperto de mão.  Ele estica a mão para tocá-la, entretanto, o celular de Margareth toca, fazendo-a levantar para atender, sem ao menos notar o esforço daquela mão frágil que vinha em sua direção, em busca de algum tipo de aconchego.  Da mesma forma que chegou, saiu. Margareth levou com ela o desejo de algo nunca realizado, uma vida resumida em dias, uma experiência amorosa vívida apenas na mente de quem agora se aconchegava na cama de um hospital.

Aos poucos, as pessoas saem do quarto. Ele olha para a janela e, apesar dos sedativos e da visão desfocada, percebe que o cinza está um pouco mais escuro. Os sons dos passos diminuem. Restava apenas um caminhar, em sua direção.

– Posso me sentar aqui?

Se nas conversas anteriores ele tentou apenas ouvir, apreciar as doces palavras de quem lhe deu experiência de vida, desta vez ele exibiu todas as lágrimas que não foram derramas antes. Apenas pela caminhada em sua direção ele já sabia de quem se tratava. Levou as mãos aos olhos, e chorou, chorou muito. Suas mãos eram seu único escudo, que separava seus olhos e mente daquilo que ele mais lamentou ter perdido em sua vida.

– Não fica assim. Eu vim aqui para que você fique bem – disse ela com um olhar puro e preocupado.
– Per.. Perdão Helena –  respondeu ele, aos prantos.

Foi a única coisa que ele conseguiu falar. Uma das mãos continuava sobre seu rosto enquanto a outra fora segurada por Helena. Não houve diálogo por muitos minutos. Só lágrimas, suspiros, e o aperto daquelas duas mãos, que pareciam fazer disparar todos os tipos de emoções que um coração humano pode suportar. 
Aos poucos a respiração foi se estabilizando, então ele secou um pouco das lágrimas com o lençol e voltou a falar, olhando fixamente para Helena.

– Só gostaria de ter uma máquina do tempo, para consertar tudo que fiz, ou melhor, para talvez não ter te conhecido.  

– O que passou, passou. Tudo na vida é uma fase, você sabe. Eu aprendi muita coisa com você e te admiro até hoje, mas chegamos ao final – reflete Helena, também com olhos abatidos, mas sem lágrimas.

Novamente, o silêncio se deu por minutos, acompanhado de lágrimas e respiros intensos. Em sua mente, um turbilhão de imagens, brigas, carinhos e conversas. Por minutos ele tentou se acalmar, imaginando que a experiência ao lado de Helena foi algo necessário, e que cada humano, por mais simples e passageiro que seja, tem alguma importância na vida do próximo. Neste momento, a cada lágrima derramada, uma lembrança feliz lhe tomava o coração.

– Obrigado por ter entrado na minha vida – diz ele, puxando as mãos de Helena, as beijando e colocando sobre seu coração, para que ela pudesse sentir a calma que lhe tomava o corpo.
Depois, com uma das mãos, ele acaricia o rosto de Helena, mulher de beleza própria, exótica e pura. Mulher que nunca fora substituída muito menos odiada.

Aos poucos, as lágrimas cessaram, e então ela perguntou – Você vai ficar bem?

– Bem, eu nunca vou ficar. Não há como alguém ficar bem depois de te ter e te perder. Há cicatrizes que a vida não pode apagar, mas a gratidão por você estar aqui, neste momento alivia toda dor que sinto neste momento.  Só preciso saber se... se... você me perdoa?

Ela se aproxima dele, pões as mãos sobre seus olhos, brincando inocentemente de protegê-lo da luz. Os dois ficam em silêncio por alguns minutos. As mãos dela continuam sobre seus olhos, ele apenas ouve a respiração de Helena. Ela está pronta para dizer algo, mas o vento do lado de fora faz aquele pequeno galho de árvore bate na janela. Neste momento ele olha para a janela e, repentinamente, para sua cama. Não há ninguém ali.

- Helena? Você me perdoa?
- Helena?
- Helena!

O silencio do quarto é quebrado por berros em busca de Helena. A aflição toma conta deste corpo enfermo. Respiração e coração se aceleram, formando compassos de desespero com as lágrimas que não podem mais ser controladas. Ele segura o lençol e aperta o pequeno colchão da maca com toda a força que pode. Fecha os olhos por segundos e os abre desesperadamente, desejando que Helena reaparecesse. Foda-se se os diálogos anteriores foram reais ou não. A única coisa que lhe importava era ter Helena por mais alguns minutos.

Cada vez mais acelerado, seu coração começa a mostrar sinais de cansaço, assim como seus olhos e suas mãos. Aos poucos as lágrimas vão cessando e, em minutos, toda a tensão do corpo vai desaparecendo, a não ser em sua mão. Ele continua segurando firme o colchão, apertando o lençol como se a força desprendida pudesse substituir o aperto de mão não dado, o beijo não correspondido, o colo e carinho não vivido nestes últimos minutos de existência.  A energia se esvai, mas as mãos continuam firmes. Os olhos se fecham, mas seus dedos continuam entrelaçados naquele lençol. O coração dorme, mas sua pele continua esperando pelo contato, de quem nunca esteve ali, de quem ele nunca pode se despedir.