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domingo, 25 de novembro de 2012

Clima Frio e Calor Humano

(Revisado e atualização)

Sobre os moradores de rua, a ciência e a academia[1]

Marcus Vinícius Carvalheiro[2]
Bom Jesus/Ielusc, Joinville, SC


Resumo

O presente artigo resulta de um ensaio monográfico acerca dos moradores de rua em Joinville (SC) e, a partir de um trabalho de campo, busca discutir questões como invisibilidade, violência e estilos de vida marginais numa perspectiva crítica. A reflexão que este trabalho encerra perpassa possíveis articulações entre a ciência e a sociedade, na medida em que procura compreender as dinâmicas de vida dos moradores de rua como locus de resistência ao sistema econômico dominante e como espaço de produção de outras formas de conhecimento.

Palavras-chave
Sociedade; Academia; Método; Invisibilidade; Educação.







Clima Frio e Calor Humano

A monografia com a qual trabalhei durante meu curso de jornalismo não é uma negação total à academia. Acho importante destacar isso já no começo deste artigo porque, talvez, esta seja a maior decepção que tive com o trabalho. Esta reflexão pode ser um pouco pessimista, mas o importante é que, de alguma maneira, tentei explorar alguns limites metodológicos e promover algumas críticas ao sistema intelectual no qual estamos inseridos. A motivação para estudar os moradores de rua surgiu do desejo de pensar criticamente a ciência como forma dominante de conhecimento e o capitalismo como sistema econômico dominante, ambos frutos do processo que engendra a contemporaneidade.
Na graduação, geralmente utilizamos como objeto de estudo o mercado no qual iremos atuar. No meu caso, foi numa crítica profunda aos veículos de comunicação que procurei os caminhos para a compreensão da nossa sociedade. Para tanto, um texto inspirador foi o livro “Contra o Método” (2008), de Paul Feyerabend. Também dialoguei com autores como James Clifford, Ivan Illich e Nietzsche, procurando traçar um diálogo e os trazendo para o campo de pesquisa. Campo que dividi com Jair, Marcos, Duda, Lê, Biro-Biro, Muçum, Willian, Alex, Paulo, Miguel e Valmir. Estes últimos, moradores de rua que possuem vidas ímpares, mas que são tratados pela sociedade através da invisibilidade ou da violenta domesticação de corpos. Seres invisíveis, que apresentam uma maneira própria de sobrevivência que não agrega ao sistema capitalista. Ao mesmo tempo, estes personagens são violentados através de uma espécie de higienização pública, quando suas presenças parecem “agredir” os padrões dominantes da vida urbana.
Percebi que, tanto no contra o método como na sobrevivência dos moradores de rua, há uma certa resistência à maneira que a nossa sociedade é construída. Na obra de Feyerabend, o anarquismo epistemológico é tratado como possibilidade de motivação de um pluralismo metodológico, mas, além disso, o tema é uma crítica severa a muitas divisões existentes dentro da ciência, academia e outros campos do saber. O autor defende novas hipóteses para desmistificar a perfeição da ciência, quebrando desta maneira, a ideia de que a ciência fornece repostas eternas e corretas.


Incursões iniciais

Minha primeira experiência com o tema foi através de uma reportagem que produzi para o Jornal A Notícia (Joinville - SC) e, apesar da matéria não ter sido publicada, seu conteúdo fundamentou os estudos que complementariam minha monografia. A dinâmica editorial de um jornal é, obviamente, ditada por constrangimentos específicos da área, que variam de acordo com o tempo de produção a espaço editorial para publicação, entre outros fatores específicos do meio. Nesta minha experiência inicial, a matéria “foi para a gaveta”, por consequência de uma mudança repentina de clima que, automaticamente, fez com que a notícia perdesse sua prioridade, já que a intenção da reportagem era demonstrar como os moradores de rua lidavam com o frio intenso durante o inverno.
O que pude observar nesta breve experiência da pesquisa participante foi a inexistência desta parcela da população para nosso sistema político, mas ao mesmo tempo, uma insistente tentativa de domesticação destas pessoas através de violências que revelam a preocupação estética do Estado em “higienizar” os centros urbanos e ocultar as profundas diferenças sociais que o próprio capitalismo gera. Através de novos estudos sobre o tema, pude interagir novamente com estes indivíduos e experimentar certa sensação de exclusão social. Os moradores de rua representam um grupo à margem de qualquer aplicabilidade política que assegure direitos e, ao mesmo tempo, liberdade. Além disto, a violência com a qual a sociedade trata este grupo de pessoas pode ser traduzida também pela recorrente política generalista de atribuir ao morador de rua características marginais, próprias de indivíduos que vivem à margem do protecionismo econômico.
Nas primeiras pesquisas pude observar que os moradores de rua utilizam brechas da sociedade para viverem com o mínimo do que concebemos como bens materiais. O mais intrigante deste nicho é a sua vontade individual de iniciar esta jornada, estimulada por diversos pressupostos ideológicos, culturais, psicológicos, subjetivos, tóxicos (dependência química), o que impede, justamente, de sermos generalistas com o nicho pesquisado e que pensemos que estas pessoas não fazem parte da mesma construção histórica do resto da população. Talvez, esta vontade implícita de trazer a público certas insatisfações ou problemas, revele uma verdade despretensiosa de viver socialmente e negar a satisfação material, mesmo que de forma quase invisível. Esta abordagem sobre a “invisibilidade pública” também foi constatada pelo psicólogo social e pesquisador Fernando Braga da Costa (2001), na pesquisa sobre os trabalhos dos garis de São Paulo. Vestido com um uniforme de gari, Braga trabalhou por oito anos, em alguns períodos por semana, varrendo as ruas da Universidade de São Paulo. A experiência fez parte de suas pesquisas de mestrado e doutorado. O psicólogo tentou demonstrar que a percepção humana é prejudicada e condicionada pela divisão social do trabalho, ou seja, enxerga-se somente a função e não a pessoa que a desempenha. Em uma entrevista para o portal responsabilidadesocial.com, Braga da Costa descreve a experiência: “O pessoal passava como se estivesse passando por um poste, uma árvore, um orelhão. Eu fiz todo esse trajeto e ninguém, em absoluto, me viu ou olhou para mim” (2003).
Esta invisibilidade seria endossada pelo fato da sociedade catarinense ainda carregar muitos traços do conservadorismo europeu em suas políticas públicas? As atitudes que espelham o assistencialismo e o individualismo, além da vivência egoísta e altruísta, citada por André Martins, no artigo Que Prazer? (2005), seria uma consequência destes conhecimentos importados? Em suma, as instâncias do pensamento acadêmico, como um resultado do sistema econômico que também atua na produção de políticas públicas e culturais que levam a sociedade a tratar os moradores de rua como seres à margem da comunidade. Constantemente, a sociedade se entrega a estes conceitos e métodos, desde os primeiros momentos em que o ser humano se reconhece como indivíduo, no entanto, em algum momento, este indivíduo precisa parar e questionar a sua própria construção.
Salvo os intervalos temporais entre as saídas de campo, que não podem ser detalhados aqui em virtude do pequeno número de páginas que tenho para escrever o artigo, certo dia acordei tentando compor uma estrutura para os relatos colhidos durante as entrevistas com os moradores de rua. Fiquei imaginando as consequências de esconder minha imagem destes personagens durante a pesquisa e, com as outras saídas de campo, percebi que, além de dialogar com os moradores de rua de maneira transparente, seria necessário descer os autores com quem eu dialogava dos pedestais intelectuais nos quais se encontravam. Por este motivo, em algumas passagens da monografia, encontrei Nietzsche na rua, ou mesmo na Catedral. A ferramenta literária foi uma saída para experimentar os limites citados anteriormente e relativizar a minha proposta crítica teórica com a minha atuação prática em campo, ou mesmo, com a confecção desta pesquisa.
No primeiro diálogo que tive com os autores, um pessimismo nietzschiano tomou conta dos meus pensamentos, remetendo-me ao texto Verdade e Mentira no Sentido Extra Moral (2008). Naquele momento, diante a impossibilidade de caracterizar meus futuros relatos como uma descrição pretensiosa da realidade, resolvi “sentar” em frente ao autor para propor um diálogo, onde utilizei minha própria fala e a “presença” do autor como forma de debater minha atuação e minha própria metodologia.
Através da transcrição dos diálogos com os moradores de rua, também tentei ser o menos conservador possível e, foi através destas saídas de campo, que pude perceber alguns mecanismos de resistência à domesticação dos próprios usuários de droga, ou dos moradores de rua. Códigos próprios e pontos cegos para escapar das câmeras de vigilância são algumas das ferramentas utilizadas por esta população que, mesmo vivendo uma situação produzida pela nossa própria sociedade, procura negar as políticas desenvolvidas que tentam regular a vida de quem mora na rua.
Estes meus aportes teóricos foram endossados através da monografia, mas, posso dizer que a construção deste trabalho se deu indiretamente, durante toda a graduação. A matéria que produzi para o Jornal A Notícia sobre os moradores de rua foi um dos pontos altos desta auto avaliação profissional e acadêmica. Quando entrei em campo pela primeira vez para fazer esta matéria, dissimulando minha identidade, fazendo-me passar por morador de rua, não levei em consideração as questões éticas da atividade. Conversar com os moradores de rua, através deste disfarce, foi como infantilizar estes personagens, desconsiderando a capacidade destes, de manterem um diálogo crítico sobre sua realidade.
Durante a realização da reportagem, acabei me rendendo às possibilidades dadas ao jornalista para a cobertura do acontecimento. Usei disfarces em busca da “realidade”, mas com o processo monográfico observei que este tema deveria estar, definitivamente, em outro patamar. A ética do pesquisador é outra, muito mais complexa e, diante disto, busquei a etnografia como referência.
Entre as leituras e referências, encontrei no artigo Pesquisas Em vs. Pesquisas Com Seres Humanos (2003), do professor Luís Roberto Cardoso de Oliveira, da Universidade Federal de Brasília, alguns anseios partilhados.

De fato, tratar pesquisas com seres humanos como se fossem pesquisas em seres humanos representa uma tentativa de colonização da antropologia ou das humanidades pelo áreacentrismo biomédico, o qual, como indiquei há pouco, tem implicações não só cognitivas mas também normativas. Neste sentido, me parece que os problemas de ordem ético-moral do antropólogo estariam mais presentes não apenas no momento da definição de sua identidade de pesquisador — na medida em que não seria possível justificar uma identidade disfarçada —, mas também num segundo momento, quando o pesquisador tem que se preocupar com a divulgação ou com a repercussão dos resultados. (2003, p. 1)

Oliveira pesquisou a prestação de serviços de um Juizado. No trabalho, o pesquisador atuou como voluntário ao lado de outras pessoas que também exerciam a função. Logo, a possibilidade de Oliveira realizar o trabalho, mesmo com uma “dupla” identidade (de voluntário e antropólogo), não envolveu nenhum tipo de dissimulação. “Os litigantes tinham dificuldade de acreditar que eu era antropólogo quando me identificava como tal no início das sessões de mediação e, ao final, às vezes chegavam a me dizer que sabiam que eu era advogado” (2003, p. 1).
Para o professor, além de todas as implicações éticas de não dissimular a presença do pesquisador, é necessário questionar sempre as dimensões ético-políticas relativas à impossibilidade do relato neutro. Oliveira narra o mito da integração absoluta do antropólogo na comunidade, baseado na impossibilidade do antropólogo se abster de suas pré-concepções e, neste sentido, o professor atenta para a preocupação do pesquisador não abrir mão da busca pela imparcialidade. “A impossibilidade de ser neutro não deve permitir que o antropólogo massageie seus dados e que, neste sentido, seja parcial.” (2003, p. 2)
Quando atuei como jornalista, pesquisando fatos em seres humanos acabei por tratá-los de maneira hierárquica, como se os interlocutores fossem inferiores ou incapazes de suscitar um debate. Além da impossibilidade do relato imparcial deparei-me com um diálogo impossível, oriundo desta lógica etnocêntrica, nutrida pela ignorância.
Através da análise de James Clifford, em A Experiência Etnográfica (2008), podemos acompanhar a evolução desta preocupação com a atuação do pesquisar no campo. Se minha experiência jornalística inicial, no campo antropológico é anti-ética, como pude perceber depois, por não considerar a possibilidade do debate entre as culturas ou por vislumbrar a imparcialidade, através do estudo de Clifford podemos perceber que o problema é resultado de uma “etnografia generalizada”. A partir de Mikhail Bakhtin (1953), o Clifford atenta para os resultados da globalização e da tendência desenfreada que a variedade de idiomas causa em uma sociedade que tenta interpretar a si mesma.
Com a expansão da comunicação e da influência intercultural, as pessoas interpretam os outros, e a si mesmas, numa desnorteada diversidade de idiomas – uma condição global que Mikahail Baktin (1953) chamou de “heteroglossia”. Este mundo ambíguo, multivocal, torna cada vez mais difícil conceber a diversidade humana como culturas independentes, delimitadas e inscritas. (CLIFFORD, 2008, p. 18)

Neste sentido, posso aproximar ainda mais o debate da imparcialidade jornalística, à luz da subjetividade no uso das linguagens para compor resultados da minha experiência, das instâncias etnográficas que Clifford salienta estarem intimamente ligadas “do começo ao fim” na escrita. Através da escrita o pesquisador traduz uma experiência em forma de texto, para isso, ele utiliza uma série de artifícios subjetivos e, até mesmo, “constrangimentos políticos”, como diz o autor, para compor uma espécie de autoridade, semelhante a uma estratégia de comunicar uma determinada “verdade”, assim como no jornalismo.
É justamente em virtude desta preocupação que Clifford narra a importante contribuição de B. Malinowski para a etnografia do século XX. O autor enumera seis tópicos, relatando os principais ganhos desta vertente, são eles: a legitimação pública e profissional do pesquisador, a acentuação do poder da observação, a utilização da língua nativa (mesmo que não se a domine perfeitamente), abstrações teóricas (com o intuito do pesquisador chegar ao cerne de uma cultura mais rapidamente), o enfoque em instituições específicas (dado o curto tempo de permanência do pesquisador com o povo a ser estudado) e a consideração de todos os representados como seres sincrônicos, ou seja, produtos de uma pesquisa de curta duração. Para Clifford, estas foram as mudanças principais que originaram outros trabalhos, destacados por suas observações participantes científicas, como Os Argonautas, do próprio Malinowski (2009), e Os Nuer, de Evans-Pritchard (1993).
Em geral, Cifford debate a observação participante como uma das melhores abordagens de pesquisa, ainda que a técnica apresente inúmeras variáveis. Nesta possibilidade, a pesquisa de campo se apresenta um pouco mais sensível, pois faz os pesquisadores experimentarem fisicamente e intelectualmente a cultura analisada. Para garantir esta “vantagem”, é necessário justamente que o pesquisador não poupe esforços em relação ao aprendizado linguístico. Neste sentido, minha atuação como morador de rua para obter informações e conteúdos que resultariam na minha primeira análise, em forma de notícia, se justificaria por me possibilitar um envolvimento direto com os personagens e uma conversação mais intenção que também contribuiria para uma espécie de “desarranjo”, como cita Clifford, das minhas próprias experiências e culturas.
Desta forma, mesmo que viva em plana metamorfose, a pesquisa participante mantém sua peculiaridade no sentido do intenso envolvimento, apesar, claro, do mito do trabalho de campo, assim como da imparcialidade jornalística, ou da descrição de verdade. No entanto, não posso ser prepotente em acreditar que as saídas com os moradores de rua possam ser consideradas imersões sobre a cultura pesquisada, neste sentido, a “observação participante intensiva”, corre o risco de ser uma experiência baseada mais na atitude documentária de um cientista, o que pode levar o trabalho a uma série de problemas de “verificação e explicação”. Dada minha análise iniciada em meados de 2010 e minha rotina bombardeada por dificuldades de pesquisa, resta-me considerar a proposta e atentar para uma possibilidade ainda maior de não reconhecer meu próprio trabalho com tal autoridade científica, própria da observação participante. Neste sentido, encontro na análise de Clifford o que talvez a maior contribuição para o meu trabalho, o fato de admitir meus próprios constrangimentos políticos e culturais na elaboração do texto, que traduz, em parte, a vivência destes moradores de rua.

Retorno ao campo

Orientado pelo erro das primeiras experiências em campo, pude perceber que a autoridade do pesquisador é um problema mais profundo e que, segundo James Clifford, precisa levar em consideração a própria cultura do pesquisador e admissão das teorias que envolvem o pensar científica e a própria escrita da etnografia. Para isso, foi necessário relativizar minha entrada no campo, promover o debate e não infantilizar os entrevistados, ou seja, apresentá-los a pesquisa e, justificá-la, a partir de uma teoria, sem omitir a presença dos inúmeros conceitos que rondam o pesquisado desde a criação de sua identidade.
Em uma tentativa de discorrer sobre o problema, problematizei a minha primeira saída a campo, onde ocultei minha identidade com o pressuposto de obter informações para uma determinada matéria. A crítica a minha própria atuação foi uma maneira de inserir a proposta do Contra o Método, de Feyerabend, mas também, de analisar as redes do sistema panóptico (ou a negação deste) criticado por Michel Foucault e presentes na vida de quem mora nas ruas.
Durante as novas saídas de campo, a maior parte dos moradores se mostravam surpresos em uma pessoa que não faz parte desta comunidade se interessar pelo modo de vida deles. Um dos usuários de crack que entrevistei, Marcos, chegou a comentar que, se houvessem mais pessoas interessadas nas histórias de vida de quem mora na rua, talvez existissem menos usuários de crack no Centro da cidade.
O morador de rua Miguel também não desconsidera a utilização do craque como um problema, mas revela que é necessário que os usuários sejam considerados como humanos, assim como qualquer outro usuário de drogas da alta classe. Ou seja, constantemente utilizamos padrões para estilizar a vida humana. Tentamos padronizar procedimentos e rotular seres humanos com a intenção de quantificar resultados, ao invés de identificar um número maior de alternativas ou soluções para os problemas que nossa sociedade enfrenta. Tentamos diminuir gastos financeiros e temporais ao internar à força moradores de rua em centros de combate às drogas, fortalecendo as práticas de higienização, com a desculpa de manter a segurança da população. Recebemos orientações para não dar esmolas aos moradores de rua, mas somos obrigados a pagar todo e qualquer tipo de imposto, desconsiderando o alto índice de corrupção do país. E o mais interessante. Aprendemos tudo isso na escola.

Sobre a metodologia

Escalamos modos de comunicação, e metodologias mesmo que mínimas, para chegarmos a um consenso do que deve, ou não, ser considerado enriquecimento profissional. Fazemos isso fora da academia também, quando tentamos considerar se a vida dos moradores de rua é digna ou não. E estes procedimentos são escolhidos não por serem os melhores, mas, por serem considerados os mais abrangentes. Claro, o anarquismo epistemológico e o modo de vida dos moradores de rua estão à margem da sociedade em virtude de um problema comum, o capitalismo. E o mais interessante é que, este mesmo problema, o capitalismo, também tenta gerar políticas e promessas de soluções para os tormentos financeiros que rondam nossa cultura.
Assim como o “Contra o Método”, estes moradores vivem à margem de políticas públicas que considerem sua natureza própria e diferenciada. O anarquismo epistemológico de Feyerabend não desconsidera os métodos existentes, mas alerta para a importância de levarmos em consideração todas as outras possibilidades de abordagens científicas que são deixadas de lado, em virtude da evolução da humanidade. Para Feyerabend, o pluralismo do conhecimento está na possibilidade do ser humano criar seus próprios métodos, através da desmistificação das forças históricas, que usurpam e declaram o que deve e o que não deve ser conhecimento. Isso se dá, segundo o autor, justamente porque todos os critérios, métodos, padrões ou regras corresponder a um momento determinando, por um contexto, por uma época diferente, é normal que o valor sofra mutação, assim como ele também não responderá mais a sua priori, a partir de sua utilização.
Posso dizer que autores como Paul Feyerabend, James Clifford, Friedrich Wilhelm Nietzsche e Ivan Illich foram personagens que caminharam comigo, quase que literalmente, durante as pesquisas. Mesmo que inseridos no sistema que criticam, estes autores me auxiliaram com análises críticas sobre nossa visão de mundo e conceito de verdade. Ao mesmo tempo em que me apoiei nestes pensadores, tentei chamá-los ao campo de pesquisa, em uma tentativa de fazê-los descer dos pedestais intelectuais no qual se encontram. Este esforço é uma crítica que corresponde ao debate estético de Karl Marx, sobre a necessidade de deslocar os autores para o presente e não se submeter às obras (neste caso, a monografia) ao caráter tradicionalista das artes (ou da academia). Mesmo fazendo parte desta intelectualidade, os autores exploram criticamente a origem do seu próprio conhecimento. Ilich questiona nossa entrada nestas instituições educacionais, Feyerabend tenta desconstruir a ciência, Clifford fala da autoridade do pesquisador e Nietzsche nos diz que toda a experiência é impossível de ser descrita com veracidade.
Em Joinville, uma cidade predominantemente industrializada e que carrega, desde sua criação, incalculáveis estereótipos europeus, a falácia em torno das culturas que originaram as comunidades da região norte de Santa Catarina pode ser um dos motivadores deste pensamento etnocêntrico, uma vez que o poder econômico criado na região corresponde diretamente ao modelo cientifico e cultural também exportado da Europa. Entretanto, o morador de rua, mesmo não atuante como um personagem consumista, participa ou contribui de alguma maneira para o atual sistema econômico. Se isso realmente é “verdade”, não seria coerente o Estado possibilitar a vontade do morador de rua viver em laços trabalhistas ou sociais como uma alternativa de vida, sem levar em consideração os interesses capitalistas?
Se fizéssemos uma análise rápida da filosofia, notaríamos que a tendência de sobreposição aristocrata existe desde Sócrates, quando o ateniense criticava a cultura grega através de novas observações sobre as crenças religiosas e a cultura da época. Ora, se a elite mais conservadora de Atenas já se preocupava com a popularidade destes pensamentos e com a subversão da ordem social, o que poderíamos dizer das forças globais desterritorializadas, que submetem a ciência atual a esta marginalização de qualquer hipótese de desenvolvimento que fuja dos interesses econômicos atuais? Não seriam as políticas assistencialistas ou a persistente santificação do trabalho praticamente goles de cicuta inseridos na vida dos moradores de rua, ou no mínimo, nas suas alternativas de vivência? O pregador laico Sócrates plantou a desordem ao perguntar o que é a “essência do homem?” e se concentrou em opor o relativismo dos sofistas, que desta a época já desempenhavam uma espécie de serviço “comissionado”, ou de retórica de aluguel. Desde que bem pagos, os sofistas já utilizavam as técnicas de argumentação para relativizar a ética e a moral, seja lá para quem fosse.
Esta razão ainda seria, para Nietzsche, uma faculdade tardia, que ocupa uma multiplicidade de impulsos, o que torna a ideia da lógica, apresentada por Descartes, uma faculdade enganadora. O projeto filosófico de Descartes estava ligado diretamente com o desejo de associar as leis numéricas com as leis do mundo, na tentativa de resgatar a escola pitagórica. Para isso, sua principal teoria era a de que a razão seria capaz de expor a verdade através do incansável questionamento das leis do mundo, apesar do próprio Descartes não ser tão questionador assim, ao ponto de acreditar que a certeza, em última análise, depende da fé em Deus.
Para Nietzsche, estes conceitos de "penso, logo existo" só existem no mundo da lógica, uma vez que dependem de uma linguagem e, esta, é condicionada a impossibilidade das palavras narrarem o conhecimento certo e seguro. A razão, aplicada por Descartes, está baseada na crença. E a crença, por si, condiciona a razão a servir determinados fins, por isso, esta lógica de razão de Descartes é, para Nietzsche, apenas um instrumento. Considerando que estas lógicas surgiram logo após o grande desenvolvimento das ciências matemáticas e a consolidação dos Estados nacionais, a modificação na filosofia de Descartes, conduzida pela aplicação do método, permeou o pensamento da humanidade com a crença de que é possível o sujeito ter seus pensamos como frações do real, desde que sejam colocados à prova pelos critérios do método. Esta noção de que as ideias podem se tornar seres reais, completos, transformou o método matemático em uma ferramenta para se chegar a este suposto "saber absoluto". Para isso, o método cartesiano transformou a metafísica em um alicerce no qual se criou toda a ciência contemporânea, onde a razão é tratada como um privilégio e única maneira de compreender o mundo.
É justamente a incoerência da linguagem que narro, mesmo que indiretamente, nas conversas com Nietzsche ou Feyerabend, dentro da ampla pesquisa que realizei para o trabalho do qual retiro este breve debate em forma de artigo. Ora, se a linguagem designa apenas a aparência das coisas, nada mais justo do que admitir abertamente que a subjetividade está presente em todo e qualquer material jornalístico, cultural, etnográfico e acadêmico. Talvez seja necessário justificar que esta admissão beira a crítica da falta de aproximação da teoria no campo de pesquisa, ou ainda, da ilusória visão da linguagem como ferramenta que impõe a verdade. Vejo no ensaio uma possibilidade do autor desenvolver, através algumas vertentes literárias, novas formas de diálogos com os autores.

O ensaio desafia gentilmente os ideais da clara et distincta e da certeza livre de dúvida. Ele deveria ser interpretado, em seu conjunto, como um protesto contra as quatro regras estabelecidas pelo Discours de la méthode de Descartes, no início da moderna ciência ocidental e de sua teoria. (GENARO, Ednei, Sobre o Ensaio como Forma, 2010, p. 5)

Desta forma, a pesquisa empírica pode tomar formas novas de análise sem prender o estudo nesta rede de conceitos cartesianos presentes nas universidades. Entretanto, também é preciso expor que esta abordagem não se trata de mera literatura ou romance. Para isso, foi através de Adorno que pude entender um pouco dos limites dos romancistas, ou da arte em si, no sentido destes estarem limitados, justamente, aos aparados da linguagem, já que ela é responsável pelo relato ficcional. Apesar de defender a arte, no sentido do seu compromisso social, o autor critica as finalidades estéticas que não consideram o caráter histórico das obras e utilizam as ferramentas artísticas sem considerar a essência da obra, que corresponde, justamente, a uma determinada época, comunidade ou cultura. Este fato da arte representar uma expressão crítica de uma determinada época é, também, o motivo pelo qual Adorno defende a utilização do ensaio como uma ferramenta que se encontra entre a própria arte e a pesquisa. Esta, pode contribuir para uma crítica social, desde que a arte não se reduza a um debate meramente estético, por isso a importância de atentar para a linha tênue entre reflexão social e reflexão estética. (1998, p. 25)

Amparado pelas teorias críticas sobre a visão acadêmica, científica e social, que tentei debater esta presença dos moradores de rua no perímetro urbano não só como um “produto” da exclusão econômica, mas como uma consequência do próprio pensar acadêmico. São eles, os moradores de rua, indivíduos que, mesmo sobre o panóptico da segurança, desenvolvem, diariamente, práticas ímpares de sobrevivência social e não almejam o lucro, ou a propriedade privada como crença. Foi através da observação participante que pude compreender que estes moradores de rua estão tão sujeitos à exclusão, assim como os métodos que não seguem os envoltos da tradição científica dentro da academia.
Em novembro de 2012, o então reitor da Universidade de Brasília, José Geraldo de Sousa Junior recebeu em mãos uma monografia que endossa ainda mais o debate proposto neste artigo. A monografia pertencia ao universitário Sérgio Reis Ferreira, formando do curso de Pedagogia e ex-morador de rua. Em matéria[3] publicada no próprio site da instituição, o mineiro Sérgio Reis revela um pouco das dificuldades que enfrentou para se adaptar ao ambiente universitário. Sérgio sofreu maus-tratos na infância em Ipatinga, Minas Gerais; viveu uma parcela da sua vida na Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (Febem); e, mais tarde, passou a viver aos arredores da Rodoviária do Plano Piloto, em Brasília. Em um trecho da monografia, citado na matéria, Sérgio revela uma espécie de expectativa que as universidades possuem em relação aos estudantes que passam pelo seu sistema.

Acredito que a universidade idealiza o estudante perfeito e se esquece da complexidade da existência humana, pois quando vem mendigo morador de rua para dentro da universidade, vem também com estes as doenças, os vícios, a falta de disciplina e, naturalmente, a dificuldade de se adequar à rigidez acadêmica. Sendo assim, é a academia que, em um primeiro momento, tem que se adequar para receber estes estudantes até que se adaptem à academia. Falo isto por experiência própria, pois tive muito dificuldade para me adequar aos horários, às regras acadêmicas escritas e não escritas, a exigência de produção e, principalmente, para me adequar à cultura acadêmica, ou seja, a maneira de se falar e de se comportar em grupo”, diz Sérgio em sua monografia.

Esta “expectativa” do sistema educacional em torno dos estudantes que passam pela estrutura universitária “entrou em choque” com a experiência de vida de Sérgio Reis. A “complexibilidade da existência humana”, sugerida pelo ex-morador de rua, revela a fragilidade deste sistema generalista, que praticamente omite estas experiências ímpares de vida no seu processo de concepção, ou mesmo manutenção.
  A complexibilidade humana não pode ser resumida a um perfil idealizado pela estrutura educacional, assim como toda a potencialidade deste debate e dos diálogos propostos neste artigo são indescritíveis em uma monografia[4] de 100 páginas, menos ainda em um resumo como este, que mutila severamente meus estudos de alguns meses. Esta padronização revela a fragilidade das metodologias que elegemos para a construção profissional ou acadêmica. Estamos condicionados a um mercado do qual não podemos nos desvincular totalmente. Por estes e outros motivos metodológicos que esta pesquisa passou por uma banca avaliadora para ter o direito de estar lado a lado de outros trabalhos igualmente mutilados, dos quais se destacaram os mais bem mutilados.
Referências bibliográficas

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[1] Trabalho apresentado no IJ 6 – Interfaces Comunicacionais do XIII Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sul realizado de 31 de maio a 2 de junho de 2012.
[2] Egresso do curso de jornalismo (Bom Jesus/Ielusc) e pós-graduando em História da Arte (Univille), email: marcus.carvalheiro@gmail.com
[3] Disponível em http://www.unb.br/noticias/unbagencia/unbagencia.php?id=7314
[4] Monografia, artigos relacionados e entrevistas em vídeo disponíveis em http://longedoreal.blogspot.com.br/2012/08/clima-frio-calor-humano.html

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Dicas para um final de ano feliz


O Natal está chegando e antes que as campanhas e mimimis de final de ano fiquem ainda mais intensas eu vou dar algumas ideias para vocês.

1º Que tal você pegar a porra do dinheiro que tua família vai gastar em fogos de artifício e transformar este valor em cesta básica para quem precisa?

2º O dinheiro que você vai gastar em bebidas, cocaína, prostituição e afins (para “comemorar” a chegada do novo ano) também poderá ser transformado em cestas básicas.

3º Ao invés de perder tempo tentando converter o próximo (de que sua crença é melhor em virtude do fator X ou Y) aproveite este tempo para debater a questão da corrupção na sua cidade, ou melhor, use este tempo para propor atividades comunitárias que tenham como foco a fiscalização de todas as promessas eleitorais de 2012.

4º Não espere que a igreja do seu bairro ou que aquele líder comunitário do partido X elabore uma campanha no estilo “Natal Feliz”. Se você pode fazer, faça por conta própria, sem esperar ser reconhecido por isso.

5º Não use o imaginário infantil em torno do Papai Noel para pedir que seu filho se comporte bem neste final de ano. Se você precisa usar esta estratégia do presente para “educar” seu filho significa que você errou o resto do ano inteiro como pai ou responsável. Ou seja, o problema não é com a criança, é com você.

6º Não, as coisas em torno da sua vida não vão mudar do dia 31 de dezembro para o dia 1º de janeiro. Se você quer alguma mudança, comece agora e não espere que pulinhos, roupas coloridas, ou qualquer outro tipo de ritual resolva teus problemas pessoais.

7º É clichê, mas é verdade: Presentes não são importantes. O importante é o amor.

8º Seja na praia ou no campo, respeite o próximo. Se você tem o péssimo gosto de ouvir Latino, guarde isso para você, ninguém precisa ser obrigado a compartilhar do teu péssimo gosto musical.

9º Respeite a natureza também. Se você insistir em beber, leve a porra da latinha para casa, jogue no lixo, recicle, enfie no rabo, mas não jogue na rua. Faça o mesmo com todo o lixo que você produzir em casa, na praia, na fazenda, ou seja lá onde for.

10º Por último: esta é apenas uma reflexão para Internet, ou seja, não adianta você curtir, compartilhar, concordar, criticar ou fazer qualquer coisa do gênero sem levar o debate para o mundo “real”. Então tire a bunda da cadeira, porque doar um alimento ou um brinquedo é importante, mas, mais importante que isso é participar e entender todo o processo. 


Marcus Carvalheiro

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Quando a gente percebe o carinho que um animal tem pelo seu 'dono'...


Hoje aconteceu uma coisa muito fora do padrão. Durante a gravação de um teaser para o Metal Scream, eu fui "agredido" por zumbis. Neste momento o Nietzsche ficou um pouco arisco e se preparou para atacar os "zumbis" que me "devoravam". 

Ok, instinto animal de proteger quem lhe dá comida, né? Mas, o lado incrível aconteceu depois. A galera foi embora, eu tomei um café e me arrumei pra dar uma saída. Caminhei dois quarteirões e o Nietzsche ficou me seguindo. Não queria deixar eu sair de casa. Tentei voltar e deixar ele em casa duas vezes, mas não adiantou, eu saia e ele me seguia.

Fui aumentando o passo, imaginando que ele voltaria, mas não adiantou. Ele nunca fez isso. Resultado: tive que colocar ele no colo e carregar até meu destino, porque ele não queria ficar longe. Acho que ele ficou com tanto medo dos zumbis me matarem que ele não quis mais ficar longe do dono. 

Quando eu já estava voltando para o Itaum coloquei ele no chão e deixei ele caminhar sozinho, para ver o que ele faria. E ele agiu como um cachorrinho, ficou caminhando no meu lado: se eu parava ele parava, se eu acelerava ele também acelerava. Agora, depois de uma longa caminhada por dois bairros, ele está aqui, se lambendo perto dos meus pés.