Subscribe to RSS Feed

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Clima Frio, Calor Humano

Então pessoal, vou disponibilizar a monografia que defendi na graduação de Jornalismo e o artigo que apresentei no Intercom Sul 2012. Segue o link com os trabalhos em PDF, algumas fotos e o link de um vídeo que faz parte do projeto. Claro, hoje eu olho esta pesquisa de outra maneira. O Marcus de hoje a faria muito mais subversiva. 


CLIMA FRIO, CALOR HUMANO.
Sobre os moradores de rua, a ciência e a academia

Resumo:

"O presente trabalho resulta de um ensaio monográfico acerca dos moradores de rua em Joinville (SC) e, a partir de um trabalho de campo, busca discutir questões como invisibilidade, violência e estilos de vida marginais numa perspectiva crítica. A reflexão que este trabalho encerra perpassa possíveis articulações entre a ciência e a sociedade, na medida em que procura compreender as dinâmicas de vida dos moradores de rua como locus de resistência ao sistema econômico dominante e como espaço de produção de outras formas de conhecimento."


(Cliquem para abrir/baixar os arquivos)






Vídeo documentário:


Obs.: As fotos em que apareço são do Pena Filho e Emerson Souza
As outras são minhas. 




















domingo, 5 de agosto de 2012

A linha tênue entre o Black Metal e o neonazismo

Ilustração do Google.


Sempre refleti sobre a linha tênue que existe entre o Black metal e o neonazismo, mas nunca parei para transcrever isso. Então resolvi perder alguns minutos deste final de domingo para fazê-lo.

Conceitos básicos

Para quem não sabe, black metal (vertente do heavy metal, assim como o death metal) é aquele estilo em que as pessoas pintam as caras, raspam o cabelo (geralmente) e abordam temas como violência, satanismo e paganismo em suas letras. Muitas vezes também incorporam ideologias nórdicas ou, até mesmo, neonazistas.

Certo, assim como qualquer outra vertente do metal, o black metal sofre alguns preconceitos, por carregar em seu som o peso da música extrema,  ou dos vocais guturais. Vocais guturais que surgiram lá entre os anos 60 e 70, a partir de experimentos de bandas como King Crimson, Black Sabbath e Pink Floyd, em músicas como 21st Century Schizoid Man, Iron Man e One of These Days, respectivamente.

Certo, vamos ao cenário:

Desde que comecei a frequentar a cena do metal percebi as inúmeras vertentes e estilos do meio. Não por acaso, os shows de black metal sempre me garantiram uma certa repulsa, não pela música em si, mas pelo tipo de gente que o frequenta. Como baterista, eu admiro a velocidade com a qual a caixa clara e o chimbal são utilizados neste estilo, por exemplo. Não é fácil tocar metal extremo, sem dúvida. Mas porque a música agressiva precisa estar intimamente ligada à intolerância religiosa ou étnica?

Simples. Por mediocridade. Vou explicar:

O Black Metal, como estilo, surgiu do álbum Black Metal, da banda inglesa Venom. De lá pra cá, muitos estereótipos foram sendo aglutinados ao estilo com a intenção de agradar determinados públicos, fãs, gravadoras, ou seja lá o que for. Por exemplo, o famoso corpse paint (pintura no rosto), foi fixado no estilo por bandas como King Diamond e Sarcófago (por volta da década de 80), no entanto, os primeiros a utilizarem a pintura no rosto em palco foram os roqueiros brasileiros do Secos & Molhados, no começo dos anos 70.

Não sou um grande conhecedor do cenário, por isso posso cometer alguns erros etnográficos, mas o que quero ressaltar aqui é a incoerência de uma determinada parcela de fãs de black metal rotularem o gênero como um local de apologia nazista. A afeição pelo Nacional Socialismo (subgênero político oriundo do nazismo) não é “privilégio” só do black metal. Muitas bandas de hardcore (ou hatecore) também fazem estas apologias.

A explicação sociológica para isso é de que os jovens que levantaram o movimento neonazista, muitas vezes, foram pessoas sem perspectivas de vida, trabalho e educação, como observa o professor Eduardo de Freitas, da Equipe Brasil Escola. Sem esta perspectiva, os jovens procuram “dispositivos de sociabilidade” (como define Michel Maffesoli) para se engajarem em um determinado grupo. Este dispositivo pode ser a música, as drogas, e até as torcidas de futebol.  Desta forma, em algum destes grupos é impregnada a ideia de que os problemas sociais atuais são decorrentes dos imigrantes (negros, latinos, turcos, poloneses etc.). Notem que não faço aqui da origem do partido nazista, pois este seria um tema que alimentaria outra reflexão/artigo, pressuponho que as pessoas já conheçam esta história.

Desta forma entendemos porque a ideologia neonazista se dispersou por países como os Estados Unidos (ler mais no link http://pt.wikipedia.org/wiki/Supremacia_branca).  Neste País, as minorias culturais (como os negros e latinos) sempre foram apontadas como as causas da criminalidade e desemprego. Agora pensem comigo, este é um País alimentado pela guerra, e conduzido pelo sentimento de medo. Não é necessário ser um grande teórico para notar, assim como Michel Moore, que a população branca norte-americana se tornou facilmente manipulada pelas organizações políticas, empresarias (principalmente no setor bélico), comunicacionais e religiosas.  

É necessário citar isso para explicar porque grupos como o White Power e Ku Klux Klan surgiram na América do Norte. Assim como estes grupos, a ramificação anti-semitas da supremacia branca também se estendeu para países como a Inglaterra, onde surgiram os Skinheads nazistas, por exemplo.  Também há outros grupos como a comunidade Stormfront, que conta com políticos/ativistas como Don Black,que alimentam a “causa”.

Bom, dada uma análise histórica básica do movimento neonazista, podemos voltar ao cenário do black metal.

Infelizmente, é normal vermos pessoas fazendo a saudação nazista em shows de black metal, ou falando e reforçando seus ideias preconceituosos dentro do cenário. Certo, já me perguntaram: “mas se você se incomoda com os neonazistas, porque você frequenta estes shows”? A reposta é simples, porque nem todo o black metal é nazista. Temos a banda Profecium, da Argentina, por exemplo, que alimenta um gênero que pode ser denominado como Black Metal Anarquista/Comunista, que surgiu através de temas como o estudo da luta de classes.  Fora isso, o black metal, assim como qualquer outro gênero do metal extremo possui como base a proposta artística da crítica severa ao sistema no qual estamos inseridos

Certo, então se temos o black metal nazista e comunista/anarquista? Qual é a diferença entre eles? A intelectualidade presente no seu processo de criação!  

O cenário em SC.

Como é citado por Nando Araujo, no artigo “Nazismo Musical: a morte da criatividade”, as letras nazistas não são inovadores em nenhum aspecto, representam apenas uma determinada “eficiência” dos profissionais ligados ao partido nazista lá na 2ª Guerra. Ou seja, os conceitos reproduzidos pelo black metal neonazista são ideiais ultrapassados que permearam a música de alguma forma através destes “jovens sem perspectiva” ou destas lideranças políticas e econômicas que ainda visam os negros e pobres como  responsáveis pelos problemas da nossa sociedade.

Ao contrário do “nazismo musical”, as propostas artísticas que elegem a luta de classe como tema buscam a inovação e a própria revolução em suas intervenções, por isso até o “anarquismo” presente no black metal da banda Profecium, por exemplo, apresenta um caráter muito mais criativo do que qualquer gênero musical apoiado nas ideias do partido nazista alemão. E esta inovação garante aos gêneros “revolucionários” uma complexibilidade muito maior no seu processo de produção, justamente, por estes artistas lidarem com a multiplicidade cultural presente em nossa sociedade, coisa que as frentes neonazistas não fazem e muito menos aceitam.

O perfil do fã de black metal nazista geralmente é composto por jovens altamente vulneráveis politicamente, que não possuem empregos complexos, ou que não possuem o hábito da leitura, muito menos o hábito de debate e verdadeira inclusão política-social. Ou seja, a falta de educação que leva o jovem catarinense ao cenário black metal neonazista é a mesma falta de educação que leva o jovem carioca que mora em comunidades carentes à vida do crime.

Em Santa Catarina, o modelo educacional conservador garante a perpetuação de alguns destes pensamentos retrógados. Digo isso a partir dos autores que estou lendo para fazer este artigo, mas também a partir da experiência que tenho de dentro do cenário.  

Conheci muitas pessoas que simpatizam com esta “causa neonazista” porque seus parentes fizeram parte do partido nazista na Alemanha, ou porque sua família carrega traços da política conservadora típica de Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Então, o black metal neonazista, assim como as torcidas de futebol, acabam se tornando um meio de extravazar estas políticas e “faltas de oportunidade” que estes jovens não conseguem canalizar por outros meios.  A intolerância se transforma em uma característica deste meio, pelo simples fato de ser muito mais fácil falar mal, bater e gritar do que debater um assunto.  É muito mais fácil ser xenofóbico e fazer uma letra de música baseada em algo que se ouviu ou leu de relance, do que estudar a complexibilidade da sociedade em qual estamos inseridos.

Neste sentido, o black metal neonazista é uma boa alternativa para estas pessoas manipuláveis se manifestarem.  Por isso eu citei anteriormente que a razão da presença neonazista na música é um reflexo da mediocridade. Mediocridade no sentido da pessoa ser mediana, rasa, fechada para a multiplicidade educacional que até a Internet favorece (ou seja, falta vontade de estudar). E isto é um reflexo de algumas políticas públicas ineficientes, produzidas desde que o mundo é mundo. Políticas conservadoras que possuem seus “auges”, como nas ditaduras.  Vale lembrar, que os pais destes estilos musicais influenciados pelo “Nacional Socialismo” são filhos da ditadura militar.

O que também acontece com o black metal neonazista é uma distorção de alguns conceitos, como o as criticas aos símbolos religiosos, ou da apologia às atmosferas sombrias que começaram a ser abordadas lá nos anos 80 pelas bandas norueguesas. Movimentos antirreligiosos como o "Inner Circle" tomaram dimensões radicais dentro do cenário anticristão, por exemplo. A crítica profunda à religião e a própria violência conduzida pelas frequentes guerras na Europa sofreram distorções (voluntariamente ou involuntariamente) e se tornaram simples copias dos modelos nacionais socialistas firmados na Alemanha. Por exemplo, no início dos anos 70, bandas de metal extremo da Noruega, Suécia (e outros países) levantaram a bandeira da guerra às religiões como resposta aos ataques históricos do cristianismo às culturas locais.  

Até a proposta teatral do “corpse paint” e dos “pseudônimos satânicos/obscuros” presentes nas primeiras bandas que fizeram parte do cenário foram distorcidas por pessoas que não entenderam a proposta. Bandas como o Immortal referiam-se à pintura como uma maneira de lembrar a pintura de “guerra”, ou a aparência do ser humano no estado de decomposição. Já os pseudônimos foram adotados por bandas como o Venom, para fazer referência à herança das tribos guerreiras que utilizavam pseudônimos para amedrontar as tribos inimigas.

Toda esta violência crítica “positiva” tem sido assimilada de maneira superficial por esta massa de fãs notoriamente manipuláveis.

Ou seja, o black metal em si é um estilo musical como qualquer outro, com um puta potencial crítico. O problema é que, assim como em qualquer nicho da sociedade, o cenário conta com a presença de pessoas imaturas politicamente que são conduzidas por interesses políticos e econômicos de um sistema notoriamente desigual (ou de um pai e avô neonazista). A falta de acesso à educação e a presença forte destas políticas conservadoras em Santa Catarina fazem com que o black metal neonazista seja apenas um reflexo deste sistema autoritário que pode ser implantando até mesmo em uma escola, como demonstra o filme “A Onda”, de Dennis Gansel.

Toda esta minha reflexão é uma tentativa de defender o black metal como expressão artística e não estilo musical neonazista. Digo isso, porque gosto de música extrema e fico chateado em ter que frequentar lugares com pseudoneonazistas. Pseudo, porque já vi muitas pessoas deste cenário (principalmente os homens) namorando mulheres negras, ouvindo samba ou até indo à igreja. Ou seja, este lance de ser neonazista é balela, mas os estereótipos que estas pessoas acarretam para o cenário é algo preocupante, que vale a reflexão acima.

Obs.1: Eu poderia citar uma lista enorme de bandas de black metal neonazistas, seja de Joinville, Santa Catarina, Brasil ou exterior. Entretanto, isso seria divulgar o trabalho destes indivíduos, por isso eu prefiro não citar. 

Obs.2: Existem muitas bandas boas e conscientes deste fardo que o black metal carrega como esteriótipo. Nem todos os integrantes do cenário, assim como nem todas as bandas, fazem esta apologia. Até acredito que, na atualidade, a quantidade de bandas neonacionalistas está diminuindo. 

Obs.3: Quem sabe que banda “X” é neonazista, mas usa a desculpa que gosta da música e não dá bola para as letras é uma pessoa com pensamento “centrista”, ou seja, mesmo que não queria, acaba tomando uma “posição” no debate, que é a posição de divulgar/financiar o trabalho de ativistas “neonazistas”.  

*Todas as fontes estão incorporadas no próprio texto.


Contribuição importante de leitores e amigos:

1) De acordo com um dos anônimos, Arthur Brown também é citado como um dos pioneiros do corpse paint (http://www.youtube.com/watch?v=uFZZofMa_Ng)

2) O filme "Antifa - Caçadores de Skins" explica bem como a música se tornou uma representação de ideais  e como as gangues de extrema direita e extrema esquerda atuaram (e ainda atuam) na França desde os anos 60. Sem saber, meu artigo acabou virando uma "continuação" do filme, já que nele é debatido os primeiros estilos musicais que absorveram estes ideais de extrema direita. Filme disponível no link: http://www.youtube.com/watch?v=CRKymsEuD1M

sábado, 4 de agosto de 2012

A trufa divina

Um homem quis me vender uma trufa na rua, até ai tudo bem. Ao parar para ouvir o que ele tinha a dizer, presenciei uma metralhadora de palavras como "casa de recuperação", "deus", "instituição de caridade" e bla bla bla.

Fui educado e deixei ele falar primeiro, mas, depois, expliquei que não colaboro com instituições religiosas. Foi ai que ele olhou sério para mim, engrossou o tom da voz e disse: "Espero que ele (deuz) tenha misericórdia de você. Quem sabe você não está em pé ou vivo só porque ele ainda deixa?".

"Isso foi uma ameaça?", tive vontade de perguntar, mas não perguntei. Então o homem começou a falar mais alto, como se eu merecesse alguma punição por não querer comprar as trufas: "Uma hora ele vai tocar no seu coração e você verá o quanto está errado, com todo este teu orgulho. Que deuz tenha piedade de você!"

"Boa sorte para ele", respondi, para encerrar o papo que não chegaria a lugar nenhum. O homem totalmente inconformado continuou falando mais algumas coisas que nem ouvi direito.

Ora essa, tenho o direito de não contribuir com instituições religiosas, não tenho? E o pior, eu esperava que esta pessoa tivesse, pelo menos, bons argumentos para fazer com que eu colaborasse, ou com que eu mudasse minha forma de pensar.

Responder minha negação com uma ameaça "em nome de deuz" não é uma boa forma de mostrar como as religiões merecem contribuições por serviços sociais. É nestas horas que eu penso que a única coisa que a tal "casa de recuperação" fez foi trocar um tipo de droga por outra.