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segunda-feira, 30 de julho de 2012

Crítica ao Festival de Dança de Joinville


Policias andando pela cidade no primeiro dia de Festival de Dança.
Foto de James Klaus e Pamela Caitano.




Crítica ao Festival de Dança de Joinville

Passada a loucura de trabalhar no Festival de Dança, agora tenho tempo para refletir mais criticamente sobre o evento.  Em geral, vou apresentar alguns pontos mais específicos, sobre coisas que ocorreram comigo ou que observei durante os 11 dias de festival.


Na verdade, vou eleger três tópicos para debater:



Reflexo do evento na cidade


Engraçado imaginar que há muitos joinvilenses que não fazem ideia de que a cidade sediou o tal do “maior festival de dança do mundo”, não é? Mas isso ocorre, e em alta escala. Na verdade, o fato não é um problema. O problema é que não enxergamos que este evento reflete de várias formas no nosso município. Em um dos dias que trabalhei no festival, sai para almoçar e, na volta, uma família aproveitou o trânsito lento em frente ao Centreventos (um pouco mais lento que o normal) para me perguntar o que estava acontecendo na cidade. Expliquei que era o Festival de Dança. Eles se interessaram, então quiseram saber como funcionava para entrar no Expocentro. Contei que as apresentações eram frequentes e gratuitas.


Em outros momentos, principalmente quando eu andava de ônibus, também escutava pessoas curiosas tentando descobrir o que era o movimento intenso dentro da cidade. Relatei isso para explicar que, mesmo com os meios de comunicação trabalhando em cima do festival, o evento assume dimensões diferentes. Talvez, esses joinvilenses só tenham notado que “algo” ocorria durante as “férias” em virtude do transito lento, dos supermercados centrais cheios, dos ônibus lotados, ou da aparente eficiência policial (típica no período do festival e só na área central).  Uma conversa específica que escutei no trajeto para o trabalho em um dos dias me chamou atenção: “a gente precisa trabalhar, mas tá difícil pegar o Iririú, ou tá cheio, ou tá atrasado, por causa deste festival”, relatava uma mulher.  Quem também deve ter notado que a cidade respirava um ar mais “seguro”, certamente, foram os moradores de rua que frequentam a praça Dário Salles, no centro.  Durante o evento, não vi praticamente nenhum deles perto do terminal, muito menos os usuários de crack que andam por esta região.  Parece que a PM endossa a ideia de “higienização” neste período.



Preconceito


Ok. Vamos imaginar que este público, não formado por bailarinos ou profundos conhecedores da arte, sai de suas casas para aproveitar o festival.  Vamos imaginar, também, que esse público é formado por pessoas de todas as classes sociais, etnias, ou estilos. Por mais colorido (culturalmente) que o evento seja, ou pareça ser, pude presenciar indícios fortes de preconceito dentro do Centreventos e da Feira da Sapatilha. Vou começar pela minha própria experiência. Faltando dois dias para terminar o evento, eu ainda era chamado de “elemento suspeito” ou “cabelo afro” pelos seguranças que trabalharam no local, fora os olhares desconfiados e diretos destas mesmas pessoas. Perdi a conta de quantas vezes eu entrava no banheiro e, dois minutos depois, algum segurança fazia o mesmo para “lavar o rosto” e olhar de relance no meu crachá, como forma de confirmar meu trabalho ou minhas intenções no local.


Certo, poderia ser só coisa da minha cabeça se eu não tivesse visto um segurança seguir dois jovens só por serem “elementos punks” dentro da Feira da Sapatilha.  Como se não bastasse, presenciei uma “geral” em alguns jovens “não-bailarinos” no lado de fora da feira, coincidentemente, eles estavam vestidos com roupas largas, bonés, sendo que dois estavam até de chinelo. Certamente, deveriam ser muito perigosos para a eficiente polícia tomar aquela atitude de envergonhar os rapazes na frente de todos os visitantes do evento.


Certo, isso também poderia ser coisa da minha cabeça, mas até no momento em que o bailarino João Rafael tentou se aquecer para um espetáculo, dentro da feira, os seguranças fizeram questão de dizer que ele não poderia se aquecer com a bicicleta, pois estas eram as ordem “superiores”. Ou seja, a apresentação do dançarino era com a bicicleta e ele precisava estudar o tipo de chão que utilizaria para fazer suas manobras. O mais incrível é que ele não estava fazendo nada de mais, parecia apenas exercícios físicos, mas com a bicicleta como apoio. “Eles me adoram”, brincou João, enquanto conversávamos. Também ouvi relatos de três pessoas sobre a quantidade “excessiva” de policiais presentes no Encontro das Ruas, evento ligado ao festival. Novamente, pessoas que curtem a cultura “urbana” são “elementos perigosos”, por isso a polícia deve ter tomado esta atitude.



Elitismo cultural


Por último, acho interessante fazer uma análise que liga os dois pensamentos anteriores a partir do depoimento de um dos seguranças que entrevistei. Perguntei sobre as possíveis dificuldades do trabalho e ele me respondeu: “o trabalho foi tranquilo, porque o público que frequenta o festival é bem seleto”. É, ele disse SELETO. Isso explica um pouco porque há punks sendo seguidos no evento, ou porque os seguranças não conseguem acreditar que um jovem de barba e dread pode trabalhar como jornalista.


Na verdade, isso também explica porque aquela família me perguntou sobre o estava acontecendo na cidade. Quantas placas nós vemos chamando a população para visitar a Feira da Sapatilha? Posso estar enganado, mas estes panfletos e guias do festival parecem circular só pela região central da cidade. Não vi nenhum ponto de informação sobre o festival dentro do terminal do centro, ou nos bairros periféricos. Posso estar enganado, e espero estar, mas, parece-me que o festival é direcionado para um determinado público, formado por artistas, jornalistas, e elites que moram nas proximidades do Centreventos. Acho que os “Palcos Abertos” ajudam a diminuir esta fronteira entre cultura e classe média/baixa, mas falta deixar mais claro para a população que o evento na Feira da Sapatilha é gratuito e aberto ao público. Para isso, os panfletos sobre o evento precisam circular por toda a cidade.


Agora, caso a povão realmente vá visitar o evento, também é necessário mudar algumas coisas que beiram o ridículo, como a história de exigir que os visitantes entrem por uma porta e saiam pela outra. A sensação que eu tinha era de que a organização queria colocar cabresto nas pessoas que entravam na feira. Sem dizer que, os jornalistas podiam entrar e sair por onde queriam, menos eu, que cheguei a ser parado pelos seguranças para receber a orientação sobre a “entrada e saída correta”.


Outro fato interessante é que as apresentações no Palco Aberto da Feira da Sapatilha ocorriam justamente no horário comercial. Como fiquei diariamente no evento, percebi que muitas famílias vinham para o local apenas depois do “expediente”, na esperança de acompanhar alguma apresentação. No entanto, nestes horários, o que sobrava era um telão para os visitantes acompanharem a apresentação competitiva (e paga) que ocorria dentro do Centreventos. Também poderia atentar para o preço alto da alimentação, tanto da feira como nos restaurantes próximos. Óbvio que este é o momento de quem trabalha diretamente no evento extrair sua renda extra. Mas, acredito que a alimentação poderia ser mais acessível e atrativa para quem se desloca até o centro e já precisa pagar ônibus para acompanhar o evento “gratuito”.


O lado bom e o lado que precisa melhorar


Enfim, não acho que o evento seja um “problema”. Longe disso. Gosto muito do festival, e ele foi meu ganha-pão nos últimos dias, assim como o de outros trabalhadores, além de promover uma vertente cultural em uma cidade industrial, como Joinville. Só espero que estas minhas impressões sejam coisas superadas nos próximos anos. Espero que os Palcos Abertos sejam cada vez mais “abertos” e que não precisem ser colocadas lonas para reservar o espetáculo a um número reduzido de pessoas. Espero que os seguranças não sejam tão preconceituosos ou que a divulgação do evento chegue às mãos do povão, que é quem paga por boa parte da estrutura do “maior festival de dança do mundo”, uma vez que o festival é incentivado pelo “Ministério da Cultura por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet). Tem o patrocínio do Governo do Estado por meio do FUNCULTURAL, Secretaria de Estado de Turismo, Cultura e Esporte”, como diziam frequentemente os locutores do evento.  


Espero que o simples direito de "entrar e sair" pela porta que quisermos seja respeitado. Espero que os ingressos não sofram aumentos constantes. Espero que um dia eu possa ver o povão sentado nas primeiras filas do teatro, ao invés de ver só donos de empresas nestas primeiras poltronas. Eu poderia ter teorizado mais este relato, mas acho que este é apenas uma crítica construtiva. Estou tentando me desapegar dos vícios acadêmicos e das palavras difíceis que transformam até nossas críticas em textos elitizados.

Termino meu relato agradecendo um grupo de pessoas que levou o festival nas costas: os responsáveis pela limpeza. Uma das zeladoras que entrevistei chegava na feira perto das 8 horas e saía depois da meia noite. Assim como os eletricistas ou os técnicos de som, estes homens e mulheres que trabalharam na zeladoria não foram homenageados no palco, apesar de serem tão dignos de aplausos e flores como todos os outros bailarinos ou celebridades condecoradas durante o evento.