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segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Orgulho de ser humano

Eu acho que existem problemas bem maiores do que se acreditar em natal ou crenças para um "ano novo", no entanto, encontrei este post que eu fiz em dezembro de 2011, e para tentar fugir da "liquidez" do FB, estou pubicando ele neste blog. Na época, utilizei como desabafo.

Orgulho de ser humano

"Parabéns para você que faz promessas que não irá cumprir. Veste-se de branco, como se acreditasse em algo, mas é um grande pecador dentro da sua própria igreja. É assistencialista, hipócrita, reacionário e um grande acomodado. Gasta milhões em fogos, bebidas e mulheres. Tenta debater algumas ideias em uma constante tentativa de sociabilizar, transformando bons conteúdos em uma grande bola de merda... que é devorada por pessoas que enxergam o conhecimento como status social. Parabéns para você que tira o funk ou o samba da favela e o coloca em bares elitizados, para dar acesso ao público que nunca subiria os morros ou as lajes para apreciá-lo. Parabéns para você que vai para este bar, ou para a faculdade, com o carro que ganhou dos pais, por ter se formado no ensino médio. Parabéns para você que nunca foi em um assentamento do MST, mas adora atormentar a sociedade com a história de que comunistas comem criancinhas. Parabéns para você que colabora para que nossa sociedade continue atrasada politicamente. Parabéns para você que acredita na política, religião ou no futebol (fanaticamente). Parabéns para todos nós que, provavelmente, vamos repetir muitas destas coisas neste 2012 (2013)."

domingo, 25 de novembro de 2012

Clima Frio e Calor Humano

(Revisado e atualização)

Sobre os moradores de rua, a ciência e a academia[1]

Marcus Vinícius Carvalheiro[2]
Bom Jesus/Ielusc, Joinville, SC


Resumo

O presente artigo resulta de um ensaio monográfico acerca dos moradores de rua em Joinville (SC) e, a partir de um trabalho de campo, busca discutir questões como invisibilidade, violência e estilos de vida marginais numa perspectiva crítica. A reflexão que este trabalho encerra perpassa possíveis articulações entre a ciência e a sociedade, na medida em que procura compreender as dinâmicas de vida dos moradores de rua como locus de resistência ao sistema econômico dominante e como espaço de produção de outras formas de conhecimento.

Palavras-chave
Sociedade; Academia; Método; Invisibilidade; Educação.







Clima Frio e Calor Humano

A monografia com a qual trabalhei durante meu curso de jornalismo não é uma negação total à academia. Acho importante destacar isso já no começo deste artigo porque, talvez, esta seja a maior decepção que tive com o trabalho. Esta reflexão pode ser um pouco pessimista, mas o importante é que, de alguma maneira, tentei explorar alguns limites metodológicos e promover algumas críticas ao sistema intelectual no qual estamos inseridos. A motivação para estudar os moradores de rua surgiu do desejo de pensar criticamente a ciência como forma dominante de conhecimento e o capitalismo como sistema econômico dominante, ambos frutos do processo que engendra a contemporaneidade.
Na graduação, geralmente utilizamos como objeto de estudo o mercado no qual iremos atuar. No meu caso, foi numa crítica profunda aos veículos de comunicação que procurei os caminhos para a compreensão da nossa sociedade. Para tanto, um texto inspirador foi o livro “Contra o Método” (2008), de Paul Feyerabend. Também dialoguei com autores como James Clifford, Ivan Illich e Nietzsche, procurando traçar um diálogo e os trazendo para o campo de pesquisa. Campo que dividi com Jair, Marcos, Duda, Lê, Biro-Biro, Muçum, Willian, Alex, Paulo, Miguel e Valmir. Estes últimos, moradores de rua que possuem vidas ímpares, mas que são tratados pela sociedade através da invisibilidade ou da violenta domesticação de corpos. Seres invisíveis, que apresentam uma maneira própria de sobrevivência que não agrega ao sistema capitalista. Ao mesmo tempo, estes personagens são violentados através de uma espécie de higienização pública, quando suas presenças parecem “agredir” os padrões dominantes da vida urbana.
Percebi que, tanto no contra o método como na sobrevivência dos moradores de rua, há uma certa resistência à maneira que a nossa sociedade é construída. Na obra de Feyerabend, o anarquismo epistemológico é tratado como possibilidade de motivação de um pluralismo metodológico, mas, além disso, o tema é uma crítica severa a muitas divisões existentes dentro da ciência, academia e outros campos do saber. O autor defende novas hipóteses para desmistificar a perfeição da ciência, quebrando desta maneira, a ideia de que a ciência fornece repostas eternas e corretas.


Incursões iniciais

Minha primeira experiência com o tema foi através de uma reportagem que produzi para o Jornal A Notícia (Joinville - SC) e, apesar da matéria não ter sido publicada, seu conteúdo fundamentou os estudos que complementariam minha monografia. A dinâmica editorial de um jornal é, obviamente, ditada por constrangimentos específicos da área, que variam de acordo com o tempo de produção a espaço editorial para publicação, entre outros fatores específicos do meio. Nesta minha experiência inicial, a matéria “foi para a gaveta”, por consequência de uma mudança repentina de clima que, automaticamente, fez com que a notícia perdesse sua prioridade, já que a intenção da reportagem era demonstrar como os moradores de rua lidavam com o frio intenso durante o inverno.
O que pude observar nesta breve experiência da pesquisa participante foi a inexistência desta parcela da população para nosso sistema político, mas ao mesmo tempo, uma insistente tentativa de domesticação destas pessoas através de violências que revelam a preocupação estética do Estado em “higienizar” os centros urbanos e ocultar as profundas diferenças sociais que o próprio capitalismo gera. Através de novos estudos sobre o tema, pude interagir novamente com estes indivíduos e experimentar certa sensação de exclusão social. Os moradores de rua representam um grupo à margem de qualquer aplicabilidade política que assegure direitos e, ao mesmo tempo, liberdade. Além disto, a violência com a qual a sociedade trata este grupo de pessoas pode ser traduzida também pela recorrente política generalista de atribuir ao morador de rua características marginais, próprias de indivíduos que vivem à margem do protecionismo econômico.
Nas primeiras pesquisas pude observar que os moradores de rua utilizam brechas da sociedade para viverem com o mínimo do que concebemos como bens materiais. O mais intrigante deste nicho é a sua vontade individual de iniciar esta jornada, estimulada por diversos pressupostos ideológicos, culturais, psicológicos, subjetivos, tóxicos (dependência química), o que impede, justamente, de sermos generalistas com o nicho pesquisado e que pensemos que estas pessoas não fazem parte da mesma construção histórica do resto da população. Talvez, esta vontade implícita de trazer a público certas insatisfações ou problemas, revele uma verdade despretensiosa de viver socialmente e negar a satisfação material, mesmo que de forma quase invisível. Esta abordagem sobre a “invisibilidade pública” também foi constatada pelo psicólogo social e pesquisador Fernando Braga da Costa (2001), na pesquisa sobre os trabalhos dos garis de São Paulo. Vestido com um uniforme de gari, Braga trabalhou por oito anos, em alguns períodos por semana, varrendo as ruas da Universidade de São Paulo. A experiência fez parte de suas pesquisas de mestrado e doutorado. O psicólogo tentou demonstrar que a percepção humana é prejudicada e condicionada pela divisão social do trabalho, ou seja, enxerga-se somente a função e não a pessoa que a desempenha. Em uma entrevista para o portal responsabilidadesocial.com, Braga da Costa descreve a experiência: “O pessoal passava como se estivesse passando por um poste, uma árvore, um orelhão. Eu fiz todo esse trajeto e ninguém, em absoluto, me viu ou olhou para mim” (2003).
Esta invisibilidade seria endossada pelo fato da sociedade catarinense ainda carregar muitos traços do conservadorismo europeu em suas políticas públicas? As atitudes que espelham o assistencialismo e o individualismo, além da vivência egoísta e altruísta, citada por André Martins, no artigo Que Prazer? (2005), seria uma consequência destes conhecimentos importados? Em suma, as instâncias do pensamento acadêmico, como um resultado do sistema econômico que também atua na produção de políticas públicas e culturais que levam a sociedade a tratar os moradores de rua como seres à margem da comunidade. Constantemente, a sociedade se entrega a estes conceitos e métodos, desde os primeiros momentos em que o ser humano se reconhece como indivíduo, no entanto, em algum momento, este indivíduo precisa parar e questionar a sua própria construção.
Salvo os intervalos temporais entre as saídas de campo, que não podem ser detalhados aqui em virtude do pequeno número de páginas que tenho para escrever o artigo, certo dia acordei tentando compor uma estrutura para os relatos colhidos durante as entrevistas com os moradores de rua. Fiquei imaginando as consequências de esconder minha imagem destes personagens durante a pesquisa e, com as outras saídas de campo, percebi que, além de dialogar com os moradores de rua de maneira transparente, seria necessário descer os autores com quem eu dialogava dos pedestais intelectuais nos quais se encontravam. Por este motivo, em algumas passagens da monografia, encontrei Nietzsche na rua, ou mesmo na Catedral. A ferramenta literária foi uma saída para experimentar os limites citados anteriormente e relativizar a minha proposta crítica teórica com a minha atuação prática em campo, ou mesmo, com a confecção desta pesquisa.
No primeiro diálogo que tive com os autores, um pessimismo nietzschiano tomou conta dos meus pensamentos, remetendo-me ao texto Verdade e Mentira no Sentido Extra Moral (2008). Naquele momento, diante a impossibilidade de caracterizar meus futuros relatos como uma descrição pretensiosa da realidade, resolvi “sentar” em frente ao autor para propor um diálogo, onde utilizei minha própria fala e a “presença” do autor como forma de debater minha atuação e minha própria metodologia.
Através da transcrição dos diálogos com os moradores de rua, também tentei ser o menos conservador possível e, foi através destas saídas de campo, que pude perceber alguns mecanismos de resistência à domesticação dos próprios usuários de droga, ou dos moradores de rua. Códigos próprios e pontos cegos para escapar das câmeras de vigilância são algumas das ferramentas utilizadas por esta população que, mesmo vivendo uma situação produzida pela nossa própria sociedade, procura negar as políticas desenvolvidas que tentam regular a vida de quem mora na rua.
Estes meus aportes teóricos foram endossados através da monografia, mas, posso dizer que a construção deste trabalho se deu indiretamente, durante toda a graduação. A matéria que produzi para o Jornal A Notícia sobre os moradores de rua foi um dos pontos altos desta auto avaliação profissional e acadêmica. Quando entrei em campo pela primeira vez para fazer esta matéria, dissimulando minha identidade, fazendo-me passar por morador de rua, não levei em consideração as questões éticas da atividade. Conversar com os moradores de rua, através deste disfarce, foi como infantilizar estes personagens, desconsiderando a capacidade destes, de manterem um diálogo crítico sobre sua realidade.
Durante a realização da reportagem, acabei me rendendo às possibilidades dadas ao jornalista para a cobertura do acontecimento. Usei disfarces em busca da “realidade”, mas com o processo monográfico observei que este tema deveria estar, definitivamente, em outro patamar. A ética do pesquisador é outra, muito mais complexa e, diante disto, busquei a etnografia como referência.
Entre as leituras e referências, encontrei no artigo Pesquisas Em vs. Pesquisas Com Seres Humanos (2003), do professor Luís Roberto Cardoso de Oliveira, da Universidade Federal de Brasília, alguns anseios partilhados.

De fato, tratar pesquisas com seres humanos como se fossem pesquisas em seres humanos representa uma tentativa de colonização da antropologia ou das humanidades pelo áreacentrismo biomédico, o qual, como indiquei há pouco, tem implicações não só cognitivas mas também normativas. Neste sentido, me parece que os problemas de ordem ético-moral do antropólogo estariam mais presentes não apenas no momento da definição de sua identidade de pesquisador — na medida em que não seria possível justificar uma identidade disfarçada —, mas também num segundo momento, quando o pesquisador tem que se preocupar com a divulgação ou com a repercussão dos resultados. (2003, p. 1)

Oliveira pesquisou a prestação de serviços de um Juizado. No trabalho, o pesquisador atuou como voluntário ao lado de outras pessoas que também exerciam a função. Logo, a possibilidade de Oliveira realizar o trabalho, mesmo com uma “dupla” identidade (de voluntário e antropólogo), não envolveu nenhum tipo de dissimulação. “Os litigantes tinham dificuldade de acreditar que eu era antropólogo quando me identificava como tal no início das sessões de mediação e, ao final, às vezes chegavam a me dizer que sabiam que eu era advogado” (2003, p. 1).
Para o professor, além de todas as implicações éticas de não dissimular a presença do pesquisador, é necessário questionar sempre as dimensões ético-políticas relativas à impossibilidade do relato neutro. Oliveira narra o mito da integração absoluta do antropólogo na comunidade, baseado na impossibilidade do antropólogo se abster de suas pré-concepções e, neste sentido, o professor atenta para a preocupação do pesquisador não abrir mão da busca pela imparcialidade. “A impossibilidade de ser neutro não deve permitir que o antropólogo massageie seus dados e que, neste sentido, seja parcial.” (2003, p. 2)
Quando atuei como jornalista, pesquisando fatos em seres humanos acabei por tratá-los de maneira hierárquica, como se os interlocutores fossem inferiores ou incapazes de suscitar um debate. Além da impossibilidade do relato imparcial deparei-me com um diálogo impossível, oriundo desta lógica etnocêntrica, nutrida pela ignorância.
Através da análise de James Clifford, em A Experiência Etnográfica (2008), podemos acompanhar a evolução desta preocupação com a atuação do pesquisar no campo. Se minha experiência jornalística inicial, no campo antropológico é anti-ética, como pude perceber depois, por não considerar a possibilidade do debate entre as culturas ou por vislumbrar a imparcialidade, através do estudo de Clifford podemos perceber que o problema é resultado de uma “etnografia generalizada”. A partir de Mikhail Bakhtin (1953), o Clifford atenta para os resultados da globalização e da tendência desenfreada que a variedade de idiomas causa em uma sociedade que tenta interpretar a si mesma.
Com a expansão da comunicação e da influência intercultural, as pessoas interpretam os outros, e a si mesmas, numa desnorteada diversidade de idiomas – uma condição global que Mikahail Baktin (1953) chamou de “heteroglossia”. Este mundo ambíguo, multivocal, torna cada vez mais difícil conceber a diversidade humana como culturas independentes, delimitadas e inscritas. (CLIFFORD, 2008, p. 18)

Neste sentido, posso aproximar ainda mais o debate da imparcialidade jornalística, à luz da subjetividade no uso das linguagens para compor resultados da minha experiência, das instâncias etnográficas que Clifford salienta estarem intimamente ligadas “do começo ao fim” na escrita. Através da escrita o pesquisador traduz uma experiência em forma de texto, para isso, ele utiliza uma série de artifícios subjetivos e, até mesmo, “constrangimentos políticos”, como diz o autor, para compor uma espécie de autoridade, semelhante a uma estratégia de comunicar uma determinada “verdade”, assim como no jornalismo.
É justamente em virtude desta preocupação que Clifford narra a importante contribuição de B. Malinowski para a etnografia do século XX. O autor enumera seis tópicos, relatando os principais ganhos desta vertente, são eles: a legitimação pública e profissional do pesquisador, a acentuação do poder da observação, a utilização da língua nativa (mesmo que não se a domine perfeitamente), abstrações teóricas (com o intuito do pesquisador chegar ao cerne de uma cultura mais rapidamente), o enfoque em instituições específicas (dado o curto tempo de permanência do pesquisador com o povo a ser estudado) e a consideração de todos os representados como seres sincrônicos, ou seja, produtos de uma pesquisa de curta duração. Para Clifford, estas foram as mudanças principais que originaram outros trabalhos, destacados por suas observações participantes científicas, como Os Argonautas, do próprio Malinowski (2009), e Os Nuer, de Evans-Pritchard (1993).
Em geral, Cifford debate a observação participante como uma das melhores abordagens de pesquisa, ainda que a técnica apresente inúmeras variáveis. Nesta possibilidade, a pesquisa de campo se apresenta um pouco mais sensível, pois faz os pesquisadores experimentarem fisicamente e intelectualmente a cultura analisada. Para garantir esta “vantagem”, é necessário justamente que o pesquisador não poupe esforços em relação ao aprendizado linguístico. Neste sentido, minha atuação como morador de rua para obter informações e conteúdos que resultariam na minha primeira análise, em forma de notícia, se justificaria por me possibilitar um envolvimento direto com os personagens e uma conversação mais intenção que também contribuiria para uma espécie de “desarranjo”, como cita Clifford, das minhas próprias experiências e culturas.
Desta forma, mesmo que viva em plana metamorfose, a pesquisa participante mantém sua peculiaridade no sentido do intenso envolvimento, apesar, claro, do mito do trabalho de campo, assim como da imparcialidade jornalística, ou da descrição de verdade. No entanto, não posso ser prepotente em acreditar que as saídas com os moradores de rua possam ser consideradas imersões sobre a cultura pesquisada, neste sentido, a “observação participante intensiva”, corre o risco de ser uma experiência baseada mais na atitude documentária de um cientista, o que pode levar o trabalho a uma série de problemas de “verificação e explicação”. Dada minha análise iniciada em meados de 2010 e minha rotina bombardeada por dificuldades de pesquisa, resta-me considerar a proposta e atentar para uma possibilidade ainda maior de não reconhecer meu próprio trabalho com tal autoridade científica, própria da observação participante. Neste sentido, encontro na análise de Clifford o que talvez a maior contribuição para o meu trabalho, o fato de admitir meus próprios constrangimentos políticos e culturais na elaboração do texto, que traduz, em parte, a vivência destes moradores de rua.

Retorno ao campo

Orientado pelo erro das primeiras experiências em campo, pude perceber que a autoridade do pesquisador é um problema mais profundo e que, segundo James Clifford, precisa levar em consideração a própria cultura do pesquisador e admissão das teorias que envolvem o pensar científica e a própria escrita da etnografia. Para isso, foi necessário relativizar minha entrada no campo, promover o debate e não infantilizar os entrevistados, ou seja, apresentá-los a pesquisa e, justificá-la, a partir de uma teoria, sem omitir a presença dos inúmeros conceitos que rondam o pesquisado desde a criação de sua identidade.
Em uma tentativa de discorrer sobre o problema, problematizei a minha primeira saída a campo, onde ocultei minha identidade com o pressuposto de obter informações para uma determinada matéria. A crítica a minha própria atuação foi uma maneira de inserir a proposta do Contra o Método, de Feyerabend, mas também, de analisar as redes do sistema panóptico (ou a negação deste) criticado por Michel Foucault e presentes na vida de quem mora nas ruas.
Durante as novas saídas de campo, a maior parte dos moradores se mostravam surpresos em uma pessoa que não faz parte desta comunidade se interessar pelo modo de vida deles. Um dos usuários de crack que entrevistei, Marcos, chegou a comentar que, se houvessem mais pessoas interessadas nas histórias de vida de quem mora na rua, talvez existissem menos usuários de crack no Centro da cidade.
O morador de rua Miguel também não desconsidera a utilização do craque como um problema, mas revela que é necessário que os usuários sejam considerados como humanos, assim como qualquer outro usuário de drogas da alta classe. Ou seja, constantemente utilizamos padrões para estilizar a vida humana. Tentamos padronizar procedimentos e rotular seres humanos com a intenção de quantificar resultados, ao invés de identificar um número maior de alternativas ou soluções para os problemas que nossa sociedade enfrenta. Tentamos diminuir gastos financeiros e temporais ao internar à força moradores de rua em centros de combate às drogas, fortalecendo as práticas de higienização, com a desculpa de manter a segurança da população. Recebemos orientações para não dar esmolas aos moradores de rua, mas somos obrigados a pagar todo e qualquer tipo de imposto, desconsiderando o alto índice de corrupção do país. E o mais interessante. Aprendemos tudo isso na escola.

Sobre a metodologia

Escalamos modos de comunicação, e metodologias mesmo que mínimas, para chegarmos a um consenso do que deve, ou não, ser considerado enriquecimento profissional. Fazemos isso fora da academia também, quando tentamos considerar se a vida dos moradores de rua é digna ou não. E estes procedimentos são escolhidos não por serem os melhores, mas, por serem considerados os mais abrangentes. Claro, o anarquismo epistemológico e o modo de vida dos moradores de rua estão à margem da sociedade em virtude de um problema comum, o capitalismo. E o mais interessante é que, este mesmo problema, o capitalismo, também tenta gerar políticas e promessas de soluções para os tormentos financeiros que rondam nossa cultura.
Assim como o “Contra o Método”, estes moradores vivem à margem de políticas públicas que considerem sua natureza própria e diferenciada. O anarquismo epistemológico de Feyerabend não desconsidera os métodos existentes, mas alerta para a importância de levarmos em consideração todas as outras possibilidades de abordagens científicas que são deixadas de lado, em virtude da evolução da humanidade. Para Feyerabend, o pluralismo do conhecimento está na possibilidade do ser humano criar seus próprios métodos, através da desmistificação das forças históricas, que usurpam e declaram o que deve e o que não deve ser conhecimento. Isso se dá, segundo o autor, justamente porque todos os critérios, métodos, padrões ou regras corresponder a um momento determinando, por um contexto, por uma época diferente, é normal que o valor sofra mutação, assim como ele também não responderá mais a sua priori, a partir de sua utilização.
Posso dizer que autores como Paul Feyerabend, James Clifford, Friedrich Wilhelm Nietzsche e Ivan Illich foram personagens que caminharam comigo, quase que literalmente, durante as pesquisas. Mesmo que inseridos no sistema que criticam, estes autores me auxiliaram com análises críticas sobre nossa visão de mundo e conceito de verdade. Ao mesmo tempo em que me apoiei nestes pensadores, tentei chamá-los ao campo de pesquisa, em uma tentativa de fazê-los descer dos pedestais intelectuais no qual se encontram. Este esforço é uma crítica que corresponde ao debate estético de Karl Marx, sobre a necessidade de deslocar os autores para o presente e não se submeter às obras (neste caso, a monografia) ao caráter tradicionalista das artes (ou da academia). Mesmo fazendo parte desta intelectualidade, os autores exploram criticamente a origem do seu próprio conhecimento. Ilich questiona nossa entrada nestas instituições educacionais, Feyerabend tenta desconstruir a ciência, Clifford fala da autoridade do pesquisador e Nietzsche nos diz que toda a experiência é impossível de ser descrita com veracidade.
Em Joinville, uma cidade predominantemente industrializada e que carrega, desde sua criação, incalculáveis estereótipos europeus, a falácia em torno das culturas que originaram as comunidades da região norte de Santa Catarina pode ser um dos motivadores deste pensamento etnocêntrico, uma vez que o poder econômico criado na região corresponde diretamente ao modelo cientifico e cultural também exportado da Europa. Entretanto, o morador de rua, mesmo não atuante como um personagem consumista, participa ou contribui de alguma maneira para o atual sistema econômico. Se isso realmente é “verdade”, não seria coerente o Estado possibilitar a vontade do morador de rua viver em laços trabalhistas ou sociais como uma alternativa de vida, sem levar em consideração os interesses capitalistas?
Se fizéssemos uma análise rápida da filosofia, notaríamos que a tendência de sobreposição aristocrata existe desde Sócrates, quando o ateniense criticava a cultura grega através de novas observações sobre as crenças religiosas e a cultura da época. Ora, se a elite mais conservadora de Atenas já se preocupava com a popularidade destes pensamentos e com a subversão da ordem social, o que poderíamos dizer das forças globais desterritorializadas, que submetem a ciência atual a esta marginalização de qualquer hipótese de desenvolvimento que fuja dos interesses econômicos atuais? Não seriam as políticas assistencialistas ou a persistente santificação do trabalho praticamente goles de cicuta inseridos na vida dos moradores de rua, ou no mínimo, nas suas alternativas de vivência? O pregador laico Sócrates plantou a desordem ao perguntar o que é a “essência do homem?” e se concentrou em opor o relativismo dos sofistas, que desta a época já desempenhavam uma espécie de serviço “comissionado”, ou de retórica de aluguel. Desde que bem pagos, os sofistas já utilizavam as técnicas de argumentação para relativizar a ética e a moral, seja lá para quem fosse.
Esta razão ainda seria, para Nietzsche, uma faculdade tardia, que ocupa uma multiplicidade de impulsos, o que torna a ideia da lógica, apresentada por Descartes, uma faculdade enganadora. O projeto filosófico de Descartes estava ligado diretamente com o desejo de associar as leis numéricas com as leis do mundo, na tentativa de resgatar a escola pitagórica. Para isso, sua principal teoria era a de que a razão seria capaz de expor a verdade através do incansável questionamento das leis do mundo, apesar do próprio Descartes não ser tão questionador assim, ao ponto de acreditar que a certeza, em última análise, depende da fé em Deus.
Para Nietzsche, estes conceitos de "penso, logo existo" só existem no mundo da lógica, uma vez que dependem de uma linguagem e, esta, é condicionada a impossibilidade das palavras narrarem o conhecimento certo e seguro. A razão, aplicada por Descartes, está baseada na crença. E a crença, por si, condiciona a razão a servir determinados fins, por isso, esta lógica de razão de Descartes é, para Nietzsche, apenas um instrumento. Considerando que estas lógicas surgiram logo após o grande desenvolvimento das ciências matemáticas e a consolidação dos Estados nacionais, a modificação na filosofia de Descartes, conduzida pela aplicação do método, permeou o pensamento da humanidade com a crença de que é possível o sujeito ter seus pensamos como frações do real, desde que sejam colocados à prova pelos critérios do método. Esta noção de que as ideias podem se tornar seres reais, completos, transformou o método matemático em uma ferramenta para se chegar a este suposto "saber absoluto". Para isso, o método cartesiano transformou a metafísica em um alicerce no qual se criou toda a ciência contemporânea, onde a razão é tratada como um privilégio e única maneira de compreender o mundo.
É justamente a incoerência da linguagem que narro, mesmo que indiretamente, nas conversas com Nietzsche ou Feyerabend, dentro da ampla pesquisa que realizei para o trabalho do qual retiro este breve debate em forma de artigo. Ora, se a linguagem designa apenas a aparência das coisas, nada mais justo do que admitir abertamente que a subjetividade está presente em todo e qualquer material jornalístico, cultural, etnográfico e acadêmico. Talvez seja necessário justificar que esta admissão beira a crítica da falta de aproximação da teoria no campo de pesquisa, ou ainda, da ilusória visão da linguagem como ferramenta que impõe a verdade. Vejo no ensaio uma possibilidade do autor desenvolver, através algumas vertentes literárias, novas formas de diálogos com os autores.

O ensaio desafia gentilmente os ideais da clara et distincta e da certeza livre de dúvida. Ele deveria ser interpretado, em seu conjunto, como um protesto contra as quatro regras estabelecidas pelo Discours de la méthode de Descartes, no início da moderna ciência ocidental e de sua teoria. (GENARO, Ednei, Sobre o Ensaio como Forma, 2010, p. 5)

Desta forma, a pesquisa empírica pode tomar formas novas de análise sem prender o estudo nesta rede de conceitos cartesianos presentes nas universidades. Entretanto, também é preciso expor que esta abordagem não se trata de mera literatura ou romance. Para isso, foi através de Adorno que pude entender um pouco dos limites dos romancistas, ou da arte em si, no sentido destes estarem limitados, justamente, aos aparados da linguagem, já que ela é responsável pelo relato ficcional. Apesar de defender a arte, no sentido do seu compromisso social, o autor critica as finalidades estéticas que não consideram o caráter histórico das obras e utilizam as ferramentas artísticas sem considerar a essência da obra, que corresponde, justamente, a uma determinada época, comunidade ou cultura. Este fato da arte representar uma expressão crítica de uma determinada época é, também, o motivo pelo qual Adorno defende a utilização do ensaio como uma ferramenta que se encontra entre a própria arte e a pesquisa. Esta, pode contribuir para uma crítica social, desde que a arte não se reduza a um debate meramente estético, por isso a importância de atentar para a linha tênue entre reflexão social e reflexão estética. (1998, p. 25)

Amparado pelas teorias críticas sobre a visão acadêmica, científica e social, que tentei debater esta presença dos moradores de rua no perímetro urbano não só como um “produto” da exclusão econômica, mas como uma consequência do próprio pensar acadêmico. São eles, os moradores de rua, indivíduos que, mesmo sobre o panóptico da segurança, desenvolvem, diariamente, práticas ímpares de sobrevivência social e não almejam o lucro, ou a propriedade privada como crença. Foi através da observação participante que pude compreender que estes moradores de rua estão tão sujeitos à exclusão, assim como os métodos que não seguem os envoltos da tradição científica dentro da academia.
Em novembro de 2012, o então reitor da Universidade de Brasília, José Geraldo de Sousa Junior recebeu em mãos uma monografia que endossa ainda mais o debate proposto neste artigo. A monografia pertencia ao universitário Sérgio Reis Ferreira, formando do curso de Pedagogia e ex-morador de rua. Em matéria[3] publicada no próprio site da instituição, o mineiro Sérgio Reis revela um pouco das dificuldades que enfrentou para se adaptar ao ambiente universitário. Sérgio sofreu maus-tratos na infância em Ipatinga, Minas Gerais; viveu uma parcela da sua vida na Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (Febem); e, mais tarde, passou a viver aos arredores da Rodoviária do Plano Piloto, em Brasília. Em um trecho da monografia, citado na matéria, Sérgio revela uma espécie de expectativa que as universidades possuem em relação aos estudantes que passam pelo seu sistema.

Acredito que a universidade idealiza o estudante perfeito e se esquece da complexidade da existência humana, pois quando vem mendigo morador de rua para dentro da universidade, vem também com estes as doenças, os vícios, a falta de disciplina e, naturalmente, a dificuldade de se adequar à rigidez acadêmica. Sendo assim, é a academia que, em um primeiro momento, tem que se adequar para receber estes estudantes até que se adaptem à academia. Falo isto por experiência própria, pois tive muito dificuldade para me adequar aos horários, às regras acadêmicas escritas e não escritas, a exigência de produção e, principalmente, para me adequar à cultura acadêmica, ou seja, a maneira de se falar e de se comportar em grupo”, diz Sérgio em sua monografia.

Esta “expectativa” do sistema educacional em torno dos estudantes que passam pela estrutura universitária “entrou em choque” com a experiência de vida de Sérgio Reis. A “complexibilidade da existência humana”, sugerida pelo ex-morador de rua, revela a fragilidade deste sistema generalista, que praticamente omite estas experiências ímpares de vida no seu processo de concepção, ou mesmo manutenção.
  A complexibilidade humana não pode ser resumida a um perfil idealizado pela estrutura educacional, assim como toda a potencialidade deste debate e dos diálogos propostos neste artigo são indescritíveis em uma monografia[4] de 100 páginas, menos ainda em um resumo como este, que mutila severamente meus estudos de alguns meses. Esta padronização revela a fragilidade das metodologias que elegemos para a construção profissional ou acadêmica. Estamos condicionados a um mercado do qual não podemos nos desvincular totalmente. Por estes e outros motivos metodológicos que esta pesquisa passou por uma banca avaliadora para ter o direito de estar lado a lado de outros trabalhos igualmente mutilados, dos quais se destacaram os mais bem mutilados.
Referências bibliográficas

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Letras, 1994

FEYERABEND, Paul. Contra o método. São Paulo: UNESP, 2007.

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OLIVEIRA, Luiz Roberto C. Pesquisa em VS pesquisa com seres humanos. 2003. Disponível em: < http://br.monografias.com/trabalhos900/pesquisas-seres-humanos/pesquisas-seres-humanos2.shtml>. Acesso em: 11 out. 2011.

PERPETUO, Grace. Morador de rua se forma em Pedagogia na UnB, 2012. Disponível em:
< http://www.unb.br/noticias/unbagencia/unbagencia.php?id=7314>. Acesso em: 26 nov. 2012.

PRADO, Marcos. Estamira. Rio de Janeiro: Zazen Produções Audiovisuais , 2006. 1 CD (121 min): DVD, son., color.

ROUANET, Sergio Paulo. Ética e Antropologia. 1990. Disponível em: < http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40141990000300006>. Acesso em: 13 out. 2011.

WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo: Martin Claret, 2003.

WIKIPEDIA. Sem Teto - Definição, 2011. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Sem-teto>. Acesso em: 16 out. 2011.



[1] Trabalho apresentado no IJ 6 – Interfaces Comunicacionais do XIII Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sul realizado de 31 de maio a 2 de junho de 2012.
[2] Egresso do curso de jornalismo (Bom Jesus/Ielusc) e pós-graduando em História da Arte (Univille), email: marcus.carvalheiro@gmail.com
[3] Disponível em http://www.unb.br/noticias/unbagencia/unbagencia.php?id=7314
[4] Monografia, artigos relacionados e entrevistas em vídeo disponíveis em http://longedoreal.blogspot.com.br/2012/08/clima-frio-calor-humano.html

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Dicas para um final de ano feliz


O Natal está chegando e antes que as campanhas e mimimis de final de ano fiquem ainda mais intensas eu vou dar algumas ideias para vocês.

1º Que tal você pegar a porra do dinheiro que tua família vai gastar em fogos de artifício e transformar este valor em cesta básica para quem precisa?

2º O dinheiro que você vai gastar em bebidas, cocaína, prostituição e afins (para “comemorar” a chegada do novo ano) também poderá ser transformado em cestas básicas.

3º Ao invés de perder tempo tentando converter o próximo (de que sua crença é melhor em virtude do fator X ou Y) aproveite este tempo para debater a questão da corrupção na sua cidade, ou melhor, use este tempo para propor atividades comunitárias que tenham como foco a fiscalização de todas as promessas eleitorais de 2012.

4º Não espere que a igreja do seu bairro ou que aquele líder comunitário do partido X elabore uma campanha no estilo “Natal Feliz”. Se você pode fazer, faça por conta própria, sem esperar ser reconhecido por isso.

5º Não use o imaginário infantil em torno do Papai Noel para pedir que seu filho se comporte bem neste final de ano. Se você precisa usar esta estratégia do presente para “educar” seu filho significa que você errou o resto do ano inteiro como pai ou responsável. Ou seja, o problema não é com a criança, é com você.

6º Não, as coisas em torno da sua vida não vão mudar do dia 31 de dezembro para o dia 1º de janeiro. Se você quer alguma mudança, comece agora e não espere que pulinhos, roupas coloridas, ou qualquer outro tipo de ritual resolva teus problemas pessoais.

7º É clichê, mas é verdade: Presentes não são importantes. O importante é o amor.

8º Seja na praia ou no campo, respeite o próximo. Se você tem o péssimo gosto de ouvir Latino, guarde isso para você, ninguém precisa ser obrigado a compartilhar do teu péssimo gosto musical.

9º Respeite a natureza também. Se você insistir em beber, leve a porra da latinha para casa, jogue no lixo, recicle, enfie no rabo, mas não jogue na rua. Faça o mesmo com todo o lixo que você produzir em casa, na praia, na fazenda, ou seja lá onde for.

10º Por último: esta é apenas uma reflexão para Internet, ou seja, não adianta você curtir, compartilhar, concordar, criticar ou fazer qualquer coisa do gênero sem levar o debate para o mundo “real”. Então tire a bunda da cadeira, porque doar um alimento ou um brinquedo é importante, mas, mais importante que isso é participar e entender todo o processo. 


Marcus Carvalheiro

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Quando a gente percebe o carinho que um animal tem pelo seu 'dono'...


Hoje aconteceu uma coisa muito fora do padrão. Durante a gravação de um teaser para o Metal Scream, eu fui "agredido" por zumbis. Neste momento o Nietzsche ficou um pouco arisco e se preparou para atacar os "zumbis" que me "devoravam". 

Ok, instinto animal de proteger quem lhe dá comida, né? Mas, o lado incrível aconteceu depois. A galera foi embora, eu tomei um café e me arrumei pra dar uma saída. Caminhei dois quarteirões e o Nietzsche ficou me seguindo. Não queria deixar eu sair de casa. Tentei voltar e deixar ele em casa duas vezes, mas não adiantou, eu saia e ele me seguia.

Fui aumentando o passo, imaginando que ele voltaria, mas não adiantou. Ele nunca fez isso. Resultado: tive que colocar ele no colo e carregar até meu destino, porque ele não queria ficar longe. Acho que ele ficou com tanto medo dos zumbis me matarem que ele não quis mais ficar longe do dono. 

Quando eu já estava voltando para o Itaum coloquei ele no chão e deixei ele caminhar sozinho, para ver o que ele faria. E ele agiu como um cachorrinho, ficou caminhando no meu lado: se eu parava ele parava, se eu acelerava ele também acelerava. Agora, depois de uma longa caminhada por dois bairros, ele está aqui, se lambendo perto dos meus pés.





sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Da enfermeira ao modelo

Então, como anda a enfermeira que gosta de dar carinho no seu yorkshire com um balde? Ouvi dizer que, depois de um incidente que ganhou as redes sociais, a sua filha acabou tirando férias na casa dos tios, um tal de casal Nardoni. Tinha até uma babá na história, uma tal de Eloá, mas parece que ela largou o trabalho ou pelo menos sumiu por um tempo. Na dúvida, a família chamou uma tal de Carmem, ou Carminha para cuidar da criança, mas dizem que esta mulher foi o terceiro elemento de uma cena trágica, que terminou na morte da criança - fato que parou todo o Brasil. Só conseguiram descobrir tudo isso porque a casa deste tal "casal Nardoni" era televisionada 24 horas por dia e tinham algumas pessoas que assinavam umas espécies de pacotes para ver o que acontecia nesta casa. O caso só foi abafado porque a enfermeira, aquela do yorkshire, reencontrou um antigo amor, que havia saído de casa por envolvimento com drogas, e foi localizado em Curitiba. De acordo as redes sociais, parece que este rapaz já foi até modelo.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Clima Frio, Calor Humano

Então pessoal, vou disponibilizar a monografia que defendi na graduação de Jornalismo e o artigo que apresentei no Intercom Sul 2012. Segue o link com os trabalhos em PDF, algumas fotos e o link de um vídeo que faz parte do projeto. Claro, hoje eu olho esta pesquisa de outra maneira. O Marcus de hoje a faria muito mais subversiva. 


CLIMA FRIO, CALOR HUMANO.
Sobre os moradores de rua, a ciência e a academia

Resumo:

"O presente trabalho resulta de um ensaio monográfico acerca dos moradores de rua em Joinville (SC) e, a partir de um trabalho de campo, busca discutir questões como invisibilidade, violência e estilos de vida marginais numa perspectiva crítica. A reflexão que este trabalho encerra perpassa possíveis articulações entre a ciência e a sociedade, na medida em que procura compreender as dinâmicas de vida dos moradores de rua como locus de resistência ao sistema econômico dominante e como espaço de produção de outras formas de conhecimento."


(Cliquem para abrir/baixar os arquivos)






Vídeo documentário:


Obs.: As fotos em que apareço são do Pena Filho e Emerson Souza
As outras são minhas. 




















domingo, 5 de agosto de 2012

A linha tênue entre o Black Metal e o neonazismo

Ilustração do Google.


Sempre refleti sobre a linha tênue que existe entre o Black metal e o neonazismo, mas nunca parei para transcrever isso. Então resolvi perder alguns minutos deste final de domingo para fazê-lo.

Conceitos básicos

Para quem não sabe, black metal (vertente do heavy metal, assim como o death metal) é aquele estilo em que as pessoas pintam as caras, raspam o cabelo (geralmente) e abordam temas como violência, satanismo e paganismo em suas letras. Muitas vezes também incorporam ideologias nórdicas ou, até mesmo, neonazistas.

Certo, assim como qualquer outra vertente do metal, o black metal sofre alguns preconceitos, por carregar em seu som o peso da música extrema,  ou dos vocais guturais. Vocais guturais que surgiram lá entre os anos 60 e 70, a partir de experimentos de bandas como King Crimson, Black Sabbath e Pink Floyd, em músicas como 21st Century Schizoid Man, Iron Man e One of These Days, respectivamente.

Certo, vamos ao cenário:

Desde que comecei a frequentar a cena do metal percebi as inúmeras vertentes e estilos do meio. Não por acaso, os shows de black metal sempre me garantiram uma certa repulsa, não pela música em si, mas pelo tipo de gente que o frequenta. Como baterista, eu admiro a velocidade com a qual a caixa clara e o chimbal são utilizados neste estilo, por exemplo. Não é fácil tocar metal extremo, sem dúvida. Mas porque a música agressiva precisa estar intimamente ligada à intolerância religiosa ou étnica?

Simples. Por mediocridade. Vou explicar:

O Black Metal, como estilo, surgiu do álbum Black Metal, da banda inglesa Venom. De lá pra cá, muitos estereótipos foram sendo aglutinados ao estilo com a intenção de agradar determinados públicos, fãs, gravadoras, ou seja lá o que for. Por exemplo, o famoso corpse paint (pintura no rosto), foi fixado no estilo por bandas como King Diamond e Sarcófago (por volta da década de 80), no entanto, os primeiros a utilizarem a pintura no rosto em palco foram os roqueiros brasileiros do Secos & Molhados, no começo dos anos 70.

Não sou um grande conhecedor do cenário, por isso posso cometer alguns erros etnográficos, mas o que quero ressaltar aqui é a incoerência de uma determinada parcela de fãs de black metal rotularem o gênero como um local de apologia nazista. A afeição pelo Nacional Socialismo (subgênero político oriundo do nazismo) não é “privilégio” só do black metal. Muitas bandas de hardcore (ou hatecore) também fazem estas apologias.

A explicação sociológica para isso é de que os jovens que levantaram o movimento neonazista, muitas vezes, foram pessoas sem perspectivas de vida, trabalho e educação, como observa o professor Eduardo de Freitas, da Equipe Brasil Escola. Sem esta perspectiva, os jovens procuram “dispositivos de sociabilidade” (como define Michel Maffesoli) para se engajarem em um determinado grupo. Este dispositivo pode ser a música, as drogas, e até as torcidas de futebol.  Desta forma, em algum destes grupos é impregnada a ideia de que os problemas sociais atuais são decorrentes dos imigrantes (negros, latinos, turcos, poloneses etc.). Notem que não faço aqui da origem do partido nazista, pois este seria um tema que alimentaria outra reflexão/artigo, pressuponho que as pessoas já conheçam esta história.

Desta forma entendemos porque a ideologia neonazista se dispersou por países como os Estados Unidos (ler mais no link http://pt.wikipedia.org/wiki/Supremacia_branca).  Neste País, as minorias culturais (como os negros e latinos) sempre foram apontadas como as causas da criminalidade e desemprego. Agora pensem comigo, este é um País alimentado pela guerra, e conduzido pelo sentimento de medo. Não é necessário ser um grande teórico para notar, assim como Michel Moore, que a população branca norte-americana se tornou facilmente manipulada pelas organizações políticas, empresarias (principalmente no setor bélico), comunicacionais e religiosas.  

É necessário citar isso para explicar porque grupos como o White Power e Ku Klux Klan surgiram na América do Norte. Assim como estes grupos, a ramificação anti-semitas da supremacia branca também se estendeu para países como a Inglaterra, onde surgiram os Skinheads nazistas, por exemplo.  Também há outros grupos como a comunidade Stormfront, que conta com políticos/ativistas como Don Black,que alimentam a “causa”.

Bom, dada uma análise histórica básica do movimento neonazista, podemos voltar ao cenário do black metal.

Infelizmente, é normal vermos pessoas fazendo a saudação nazista em shows de black metal, ou falando e reforçando seus ideias preconceituosos dentro do cenário. Certo, já me perguntaram: “mas se você se incomoda com os neonazistas, porque você frequenta estes shows”? A reposta é simples, porque nem todo o black metal é nazista. Temos a banda Profecium, da Argentina, por exemplo, que alimenta um gênero que pode ser denominado como Black Metal Anarquista/Comunista, que surgiu através de temas como o estudo da luta de classes.  Fora isso, o black metal, assim como qualquer outro gênero do metal extremo possui como base a proposta artística da crítica severa ao sistema no qual estamos inseridos

Certo, então se temos o black metal nazista e comunista/anarquista? Qual é a diferença entre eles? A intelectualidade presente no seu processo de criação!  

O cenário em SC.

Como é citado por Nando Araujo, no artigo “Nazismo Musical: a morte da criatividade”, as letras nazistas não são inovadores em nenhum aspecto, representam apenas uma determinada “eficiência” dos profissionais ligados ao partido nazista lá na 2ª Guerra. Ou seja, os conceitos reproduzidos pelo black metal neonazista são ideiais ultrapassados que permearam a música de alguma forma através destes “jovens sem perspectiva” ou destas lideranças políticas e econômicas que ainda visam os negros e pobres como  responsáveis pelos problemas da nossa sociedade.

Ao contrário do “nazismo musical”, as propostas artísticas que elegem a luta de classe como tema buscam a inovação e a própria revolução em suas intervenções, por isso até o “anarquismo” presente no black metal da banda Profecium, por exemplo, apresenta um caráter muito mais criativo do que qualquer gênero musical apoiado nas ideias do partido nazista alemão. E esta inovação garante aos gêneros “revolucionários” uma complexibilidade muito maior no seu processo de produção, justamente, por estes artistas lidarem com a multiplicidade cultural presente em nossa sociedade, coisa que as frentes neonazistas não fazem e muito menos aceitam.

O perfil do fã de black metal nazista geralmente é composto por jovens altamente vulneráveis politicamente, que não possuem empregos complexos, ou que não possuem o hábito da leitura, muito menos o hábito de debate e verdadeira inclusão política-social. Ou seja, a falta de educação que leva o jovem catarinense ao cenário black metal neonazista é a mesma falta de educação que leva o jovem carioca que mora em comunidades carentes à vida do crime.

Em Santa Catarina, o modelo educacional conservador garante a perpetuação de alguns destes pensamentos retrógados. Digo isso a partir dos autores que estou lendo para fazer este artigo, mas também a partir da experiência que tenho de dentro do cenário.  

Conheci muitas pessoas que simpatizam com esta “causa neonazista” porque seus parentes fizeram parte do partido nazista na Alemanha, ou porque sua família carrega traços da política conservadora típica de Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Então, o black metal neonazista, assim como as torcidas de futebol, acabam se tornando um meio de extravazar estas políticas e “faltas de oportunidade” que estes jovens não conseguem canalizar por outros meios.  A intolerância se transforma em uma característica deste meio, pelo simples fato de ser muito mais fácil falar mal, bater e gritar do que debater um assunto.  É muito mais fácil ser xenofóbico e fazer uma letra de música baseada em algo que se ouviu ou leu de relance, do que estudar a complexibilidade da sociedade em qual estamos inseridos.

Neste sentido, o black metal neonazista é uma boa alternativa para estas pessoas manipuláveis se manifestarem.  Por isso eu citei anteriormente que a razão da presença neonazista na música é um reflexo da mediocridade. Mediocridade no sentido da pessoa ser mediana, rasa, fechada para a multiplicidade educacional que até a Internet favorece (ou seja, falta vontade de estudar). E isto é um reflexo de algumas políticas públicas ineficientes, produzidas desde que o mundo é mundo. Políticas conservadoras que possuem seus “auges”, como nas ditaduras.  Vale lembrar, que os pais destes estilos musicais influenciados pelo “Nacional Socialismo” são filhos da ditadura militar.

O que também acontece com o black metal neonazista é uma distorção de alguns conceitos, como o as criticas aos símbolos religiosos, ou da apologia às atmosferas sombrias que começaram a ser abordadas lá nos anos 80 pelas bandas norueguesas. Movimentos antirreligiosos como o "Inner Circle" tomaram dimensões radicais dentro do cenário anticristão, por exemplo. A crítica profunda à religião e a própria violência conduzida pelas frequentes guerras na Europa sofreram distorções (voluntariamente ou involuntariamente) e se tornaram simples copias dos modelos nacionais socialistas firmados na Alemanha. Por exemplo, no início dos anos 70, bandas de metal extremo da Noruega, Suécia (e outros países) levantaram a bandeira da guerra às religiões como resposta aos ataques históricos do cristianismo às culturas locais.  

Até a proposta teatral do “corpse paint” e dos “pseudônimos satânicos/obscuros” presentes nas primeiras bandas que fizeram parte do cenário foram distorcidas por pessoas que não entenderam a proposta. Bandas como o Immortal referiam-se à pintura como uma maneira de lembrar a pintura de “guerra”, ou a aparência do ser humano no estado de decomposição. Já os pseudônimos foram adotados por bandas como o Venom, para fazer referência à herança das tribos guerreiras que utilizavam pseudônimos para amedrontar as tribos inimigas.

Toda esta violência crítica “positiva” tem sido assimilada de maneira superficial por esta massa de fãs notoriamente manipuláveis.

Ou seja, o black metal em si é um estilo musical como qualquer outro, com um puta potencial crítico. O problema é que, assim como em qualquer nicho da sociedade, o cenário conta com a presença de pessoas imaturas politicamente que são conduzidas por interesses políticos e econômicos de um sistema notoriamente desigual (ou de um pai e avô neonazista). A falta de acesso à educação e a presença forte destas políticas conservadoras em Santa Catarina fazem com que o black metal neonazista seja apenas um reflexo deste sistema autoritário que pode ser implantando até mesmo em uma escola, como demonstra o filme “A Onda”, de Dennis Gansel.

Toda esta minha reflexão é uma tentativa de defender o black metal como expressão artística e não estilo musical neonazista. Digo isso, porque gosto de música extrema e fico chateado em ter que frequentar lugares com pseudoneonazistas. Pseudo, porque já vi muitas pessoas deste cenário (principalmente os homens) namorando mulheres negras, ouvindo samba ou até indo à igreja. Ou seja, este lance de ser neonazista é balela, mas os estereótipos que estas pessoas acarretam para o cenário é algo preocupante, que vale a reflexão acima.

Obs.1: Eu poderia citar uma lista enorme de bandas de black metal neonazistas, seja de Joinville, Santa Catarina, Brasil ou exterior. Entretanto, isso seria divulgar o trabalho destes indivíduos, por isso eu prefiro não citar. 

Obs.2: Existem muitas bandas boas e conscientes deste fardo que o black metal carrega como esteriótipo. Nem todos os integrantes do cenário, assim como nem todas as bandas, fazem esta apologia. Até acredito que, na atualidade, a quantidade de bandas neonacionalistas está diminuindo. 

Obs.3: Quem sabe que banda “X” é neonazista, mas usa a desculpa que gosta da música e não dá bola para as letras é uma pessoa com pensamento “centrista”, ou seja, mesmo que não queria, acaba tomando uma “posição” no debate, que é a posição de divulgar/financiar o trabalho de ativistas “neonazistas”.  

*Todas as fontes estão incorporadas no próprio texto.


Contribuição importante de leitores e amigos:

1) De acordo com um dos anônimos, Arthur Brown também é citado como um dos pioneiros do corpse paint (http://www.youtube.com/watch?v=uFZZofMa_Ng)

2) O filme "Antifa - Caçadores de Skins" explica bem como a música se tornou uma representação de ideais  e como as gangues de extrema direita e extrema esquerda atuaram (e ainda atuam) na França desde os anos 60. Sem saber, meu artigo acabou virando uma "continuação" do filme, já que nele é debatido os primeiros estilos musicais que absorveram estes ideais de extrema direita. Filme disponível no link: http://www.youtube.com/watch?v=CRKymsEuD1M