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domingo, 27 de fevereiro de 2011

Amor de mãe

Uma estrada de barro repleta de buracos e lama. No lado esquerdo da rua, uma fileira de barracos e casas. O ambiente é úmido e escuro. Atrás das casinhas, existe uma grande vegetação, natural de regiões com mangue. O conjunto de casas é separado da rua por uma valeta que se estende até o final da estrada. As casas têm poucos cômodos, são feitas de madeira, suor e representam a dedicação de pessoas que ainda lutam pela legalização de seus terrenos. A área faz parte de uma ocupação no bairro Jardim Paraíso, em Joinville, lugar em que Evanir Terezinha de Paula reconstróei sua vida ao lado das filhas.

As casas de madeira são simples, mas guardam diversas histórias de vida. Uma delas é a de Evanir, 42 anos, que faz o possível para que seu lar seja um ambiente aconchegante e seguro. Pele morena, cabelos castanhos, camisa de algodão surrada e aparência de uns 55 anos, a mãe mora com suas três filhas: Édina, de 16 anos, Érica, de dez, e Helen, de oito. A menor é a que mais dá trabalho, mas também é a mais carinhosa.

"Quando as meninas não estão no colégio, elas brincam na frente de casa. Não deixo que fiquem na rua. No máximo, qui na frente mesmo", conta Evanir. A mãe não gosta que as gilhas fiquem fora do seu campo de visão. Evanir não trabalha fora, sobrevive da renda do marido, e sua aparência reflete uma pessoa um pouco rustrada por ficar em casa o dia inteiro. O que parece recompensar a mãe é a possibilidade de chamar as filhas, e ouví-las reponder cada vez que o coração de mãe aperta.

A mãe inicia a conversa, mas seus olhares contínuos para a frente da casa revelam a preocupação em deixar as duas filhas menores sozinhas. Parada na porta da sala, a menina mais velha, Édina de Paula, exlica que tenta ajudar a mãe, brincando de escolinha com as irmãs. "A Helen tem problema na escola. Os professores disseram pra mãe que ela entende o conteúdo, mas não consegue prestar atenção na aula. Ela é inteligente, mas não fica quieta", descreve.

Um cheiro de café fresco paira na pequena residência e interrompe a conversa, Evanir vai para a cozinha por uns dois minutos. Logo depois, quando retorna, Evanir senta no banquinho de madeira para continuar o papo. Enquanto isso, Helen corre pela beirada da valeta em frente à casa. Em um descuido, a menina escorrega para dentro da água suja, mas foi só um susto. Evanir leva a criança para o chuveiro e busca uma toalha. A varanda da casa também serve de varal. A mãe procura a toalha para a filha e aproveita para recolher as roupas secas. Passado o contra tempo, Helen se aconchega no colo da mãe e acompanha a conversa com testa franzida, como de quem não entende muito bem do que se trata.

A casa de Evanir não é legalizada, a água vem através de um "gato", e em dias de chuva é quase impossível levar as crianças pra escola por conta da lama. Enquanto enxuga o cabelo de Helen, Evanir relata sua vida. O amor com o qual descreve os fatos aos poucos é substituido por uma espécie de angústia. A tristeza que toma conta do rosto da mulher é resultado de lembranças que envolvem seus outros filhos.

Mesmos com os erros de conjunção verbal, a mãe procura palavras doces para descrever cada centímetro de onde mora. Todavia, o gosto pela casa não é igual à afetividade pelo bairro. "Na verdade, não gosto muito desse bairro. Eu morava aqui quando me casei pela primeira vez. Tive sete filhos com meu primeiro marido. Ele era um homem muito ruim e agressivo", explica. Mesmo com um marido violento, Evanir foi morar no Paraná com a família. Pouco tempo depois, retornou para Joinville. "As coisas ficaram mais difíceis no Paraná. Trabalhávamos o dia inteiro, e as crianças ficavam sozinhas em casa. Às vezes, os vizinhos olhavam os meninos, mas foi lá que eles se desgraçaram", lembra a mãe, olhando para baixo, como se procurasse algum buraco para se esconder. "Acabei me separando e vim morar com os meninos em Joinville. Aqui, pelo menos, tenho outros parentes e conhecidos". Incomodada com a conversa, Helen sai do colo da mãe e vai para a frente da TV assirtir os desenhos do Pica-Pau junto às irmãs.

Em 1998, Evanir voltou para Joinville. Ainda não tinha as três meninas menores, vivia com seus outros filhos. Algum tempo depois, conheceu Guilherme Amorim, com quem teve as meninas. Os filhos mais velhos foram morar sozinhos. "Chegamos ao fundo do poço. Assim que voltei para Joinville, eu já desconfiava que os meninos estavam envolvidos com essas coisas". A Mãe conta que os filhos passavam alguns dias fora de casa, saíam e voltavam sem avisar. "Sabe o que é deitar e ter gente andando em volta da sua casa? É muito triste ver tudo desabando. Até meu filho mais novo (que tinha 13 anos) começou a vender drogas".

Atualmente, Evanir mora apenas com as meninas, mas ainda mantem contato com os filhos mais velhos. Com um olhar mais aliviado, a mãe descreve o que seria uma virada de jogo para a família: "Com o tempo, algumas coisas se ajeitaram. O que falta é uma pessoa que te empurre, sabe? Que te dê a mão quando você precisa. Foi o que um pastor qui da Universal fez".

Abandonados pelos serviços públicos, resta aos moradores da ocupação do Jardim Paraíso aguardar a coorperação de ONGs ou instituições religiosas. "O que meus filhos eram, Deus vai me devolver". O dia escurece mais um pouco, e a vinheta do telejornal indica que os desenhos que entretiveram as meninas haviam terminado. É hora de alimentar as crianças, recolher o resto das roupas e continuar sonhando com um futuro melhor para os filhos.




*Alguns nomes foram alterados para não expor a família.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Animação

Poderia até ser um Ciclo de Cinema:


Valsa com Bashir (2008) - Ari Folman



Waking Life (2001) - Richard Linklater



The Animatrix (2003) - (Andy e Larry Wachowski / Andy Jones / Mahiro Maeda / Shinichiro Watanabe / Yoshiaki Kawajuri / Takeshi Koike / Koji Morimoto / Peter Chung.)



Final Fantasy: The spirits within (2001) - Hironobu Sakaguchi

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Pink Freud

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Fora da rotina

Uma boa experiência.




Mais fotos no Blog do A Notícia - www.an.com.br/retratistas -


http://bit.ly/hgkBTP




terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Verbo suicída

Final de tarde. Barulho da chuva forte no telhado e janelas fechadas. Clima tenso, macabro e escuro. Policiais perto da porta. Madeiras podres. Um chute. Porta aberta. Ambiente repleto de odores e podridão. Um pouco de poeira sobre a mesa. Bananas e laranjas podres dentro de uma espécie de vazo. Moscas em todo o lugar. Cadeiras jogadas no chão. Ambiente úmido. As primeiras luzes das lanternas. Sinais e gestos. Ambiente seguro. Geladeira aberta e vazia. Torneira com goteiras. Água vermelha no chão. Lanterna e, na verdade, sangue. Embaixo da mesa, um corpo. Forte cheiro de carne mofada. O sangue espalhado pelo corpo. Pulsos cortados. Alguns vermes, algumas moscas e muito odor. O silêncio termina. Quebrado por apitos e berros. Fim do desaparecimento. Um suicídio.