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domingo, 30 de janeiro de 2011

Errado e por linhas tortas

Movimentos leves e despretensiosos. Ela tenta esconder os fios brancos entre a franja e seu curto cabelo castanho. No espelho, além do reflexo de algumas rugas, a mulher de meia idade revela um olhar distante, como se, mais uma vez, aceitasse, em sua própria imagem, uma espécie de derrota. Por um instante, recompõe seu corpo, movimenta as costas, ajeita a coluna, olha fixamente para o espelho e decide começar o dia.

As janelas são abertas e, aos poucos, o quarto de casal é iluminado por alguns raios de sol. A claridade do ambiente indica o horário em que a primeira bandeja de remédios precisa ser aplicada e consumida. Maria Eduarda cuidadosamente abre alguns frascos, escolhe algumas pílulas e, ao mesmo tempo, preenche uma colher de chá com uma espécie de xarope. Novamente, a leveza das mãos. Maria Eduarda faz com que seu marido ingira todos os remédios de forma delicada e concisa. Ele não mexe praticamente nenhum músculo do corpo. A simplicidade com que o ato se desenvolve revela um procedimento padrão, repetido há anos.

Todos os dias, Maria Eduarda Vieira sacrifica sua liberdade individual. Tem apenas 35 anos, mas, as rugas e a constante respiração profunda denunciam um desgosto perpétuo pela vida. Aos 23 anos, Maria Eduarda casara com Ricardo A. Vieira. O matrimônio durou cerca de cinco anos. Ao completar 28 anos, Ricardo sofrera um acidente de carro. O Corsa cinza que dirigira fora perdido completamente, assim como, a liberdade de sorrir, chorar, agradecer e curvar-se ao mundo que lhe pregara a maior peça de sua vida. Há sete anos, Maria se dedica completamente ao marido tetraplégico.

Graças a uma parcela da pensão cedida pelo governo, o casal consegue resolver os gastos da casa. Mesmo assim, Maria trabalha cerca de seis horas por dia. Durante este período, o tetraplégico fica praticamente sozinho. Aos 35 anos, a pela morena de Maria encontra-se presa a uma vida dividida pelo compromisso oriundo da paixão e a busca internalizada da liberdade. Maria Eduarda vive longe da família. Seus pais e irmãos moram na cidade de Branquinha, em Alagoas. Maria e Ricardo estão em Joinville desde que iniciaram o namoro, quando tinham apenas 18 anos. A cidade industrial possibilitou a Ricardo, um promissor engenheiro, algumas regalias, que em sua cidade natal, junto à Maria, não seriam possíveis. Todavia, foi também em Santa Catarina, que Ricardo sofrera o acidente. Hoje, o frágil engenheiro vive apenas o que Maria também não vive.

Maria Eduarda sonhava em ser professora, começou a cursar ensino superior na área de letras, mas, a linha torta em que deuz escrevera sua vida adiou o sonho por tempo indeterminado. Atualmente, Maria Eduarda trabalha em uma creche. A paciência com que lida com as crianças diariamente é redobrada em casa, aonde cuida praticamente de outro filho – um filho que, por destino, ganhara uma mãe no lugar de esposa.

O rosto de Maria Eduarda revela um cansaço que pendura há anos na vida do casal. Além de remédios, a mulher prepara a comida, limpa a casa e cuida da higiene pessoal de seu marido. Durante poucos dias do mês recebe ajuda de uma empregada, que além de funcionária, vira conselheira e psicóloga. Não há subterfúgio. A expressão de Maria no espelho todos os dias de manhã revelam a ânsia por uma solução que nem médicos (e muito menos deuz) podem revelar.



Sim, o texto é meu.
Não, a história não é real.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Fragmentos

Santiago

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Uma Joinville de alguns alemães

Artigo que fiz no seminário "Pensamento Social Brasileiro", com o professor Jacques Mick.



Uma Joinville de alguns alemães


O tradicionalismo alemão do norte catarinense vem sendo contestado há mais de 12 anos. Estudos, como o Das Paradies in den Sümpfen (O Paraíso no Pântano, 2004), livro do historiador Dilney Cunha, contribuem para a reconfiguração histórica de Joinville. Na obra, Dilney apresenta documentos que derrubam mitos sobre a cidade, entre eles, a ideia de que o município foi predominantemente colonizado por alemães. Nesse contexto ilusório, irregularidades se perpetuaram durante 150 anos e, hoje, a população da antiga Colônia Dona Francisca assume uma falsa identidade. Há realmente uma sobreposição da cultura alemã sobre todas as outras em Joinville? Ou esse discurso, responsável pelo estabelecimento de um ethos do trabalho, foi endossado por princípios de uma elite?

O predomínio da ideologia alemã no ambiente da construção real da cidade é insustentável, justamente pelo traço cronológico do período de transição entre colônia e república. Mesmo que tarde, em relação a outras regiões, a cidade começou a se desenvolver abrigando imigrantes de diversas origens, como portugueses, holandeses e suíços. Outros fatos, oriundos de documentos do Arquivo Histórico de Joinville, também apontam para a desmistificação do mito germânico. Já em 1804, historiadores revelavam a presença de negros na região de Joinville. Parte dessa herança cultural vem sendo dissimulada pela elite local. Na sua maioria, documentos de compra e venda de escravos são heranças não muito bem vindas pela casta que ainda habita a cidade.

Relatos de 1849, período de criação a Colônia Dona Francisca, deram origem aos estudos de Dilney Cunha. Os dados foram traduzidos por Helena Remina Richlin e, comprovam que a maior parte dos imigrantes da colônia vinha da Suíça. Esse processo de colonização continuou: em 1857 – dos 2.858 imigrantes da colônia, 705 eram suíços, os outros vinham da Bélgica, Noruega e as outras regiões da Europa que, mais tarde, fariam parte da Alemanha. Todavia, oligarquias, tradicionalmente alemãs, conquistaram grande espaço na cidade e, assim, uma falsa identidade começou a ser implantada e expressa em ruas e construções por sobrenomes como Colin, Buschle, Lepper, Krüger, Schultz, Schmidt, Hansen, entre outros.

A ocupação desse território, assim como em toda Santa Catarina, foi realizada por casais ou famílias que vinham aos trópicos tentar a sorte. Esse intuito de aventurar-se no sul dos trópicos faz da imigração deste estado, segundo Caio Prado Júnior, um fato “inverso e singular a todo Brasil”. Esse lugar misturado de outras culturas, além das lusitanas, não interessou o sistema latifundiário. O relevo inapropriado beneficiou, portanto, essas experiências distintas e diversificadas. A produção voltou-se para consumo próprio e o excesso desses produtos começou a estabelecer uma ordem de exportação. Essa lógica deu origem às grandes propriedades familiares (ainda hoje bem demarcadas na região de Joinville). Essa tese também rebate um pouco a ideia de que o país foi colonizado apenas por degredados.

Ainda que tenha se desenvolvido de forma peculiar, Santa Catarina arcou com as mesmas consequências de todo o Brasil. Um país criado a margem de sistemas políticos eficazes, um Estado predominantemente neoliberal onde brechas garantiram a permanência de elos exploratórios e desiguais. Essas ações orientadas por uma experiência histórica mantêm oligarquias, ao invés de gerar planos e políticas que garantam, em níveis realmente representativos, a igualdade social. A lógica do Estamento, segundo Raymundo Faoro, praticado no Império, através de personagens como Condes ou amigos do Rei, assumiu novas características, sendo interpretada, então, por funcionários públicos comissionados. Essa prática assegura estruturas políticas que contribuem para a velha apropriação do público pelo privado. Essa tendência explica, em certa medida, porque neste município grandes mudanças demoram a acontecer no ambiente governista, garantindo assim o aparelhamento da política joinvilense a favor de uma classe social específica.

Com apenas 25 mil habitantes, em 1911, Joinville já havia fundado a Associação Comercial e Industrial de Joinville (Acij), onde seu primeiro presidente foi Hermann August Lepper. Essa união já permitiria às lideranças, uma manutenção permanente do tradicionalismo do setor industrial em moldes legais. Em 1920, o município passou a abrigar 42 mil moradores, mas, a população começou aumentar significativamente em 1960 (com 70,7 mil habitantes). O forte índice foi consequência do desenvolvimento industrial. Com a engrenagem do capitalismo, os centros urbanos foram ampliados. De 1970 a 1980, a demanda por mão de obra fez Joinville aumentar sua população em 87%. Consiste, nesse período, uma forte migração de moradores do Paraná para a cidade dos “príncipes” (A Fundição Tupy destaca-se como uma das maiores incentivadoras desse processo). Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE), estima-se que, hoje, 10% da população da cidade seja formada por paranaenses. Com esse ambiente multicultural, o índice de miscigenação é uma conseqüência que comprova mais uma vez, o discurso falho da identidade essencialmente alemã.

O poder patriarcal se revelou como uma chave para as iniciativas políticas da cidade. O coronelismo, como sua forma original, não alcançou o poder absoluto em Santa Catarina, até mesmo porque, a lógica latifundiária não foi aplicada como no resto do país, mas, os favores e as reprocidades, narradas por Vitor Nunes Leal, foram aplicadas e ainda alimentam a estrutura política do estado. Em Joinville, basta comparar o quadro de ex-prefeitos com o histórico de ex-presidentes da Acij, que inúmeros sobrenomes se repetirão. Fato notório, visto que o coronelismo, nessa cidade, sempre assumiu um caráter específico através de benefícios, isenções fiscais e deliberações para setores específicos. Ainda que alguns sobrenomes não constem mais diretamente em cargos públicos, o sistema implantado até hoje não sofreu grandes alterações. Algumas mudanças ocorrem para manter a hegemonia de uma determinada classe em Joinville e sua representatividade decisiva em setores públicos. Essa administração cultural e pública mantém realmente uma sobreposição cultural fortificada por uma ideia de estamento, evidenciando deste modo, uma cidade alemã, ou melhor, de alguns alemães.

domingo, 23 de janeiro de 2011

V for Vendetta - Intro

O HQ é ainda melhor.
No filme, esta é minha parte favorita.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Clima frio e calor humano

Trecho de um texto que fiz estes tempos, coisa de foca, mas será a base da minha monografia.
A reportagem faz parte de uma matéria sobre os moradores de rua de Joinville.
Estava vestido com trapos. Uma espécie de pesquisa participativa.




Clima frio e calor humano


Cinco minutos. Foi o tempo necessário para encontrar o primeiro andarilho no centro de Joinville. Era uma manhã de quinta-feira fria, fazia 10 graus e chovia fraco. Ele caminhava pela Av. Procópio Gomes, sentido centro, segurando um rádio à pilha bem perto do ouvido. Vestia um conjunto moletom cinza escuro, sujo de poeira e barro. Barba mal feita e aparência de uns 45 anos. Iniciei a conversa e, sem hesitação, o andarilho explicou como chegar no lar Casa Marta e Maria: "Se você for agora, consegue até almoço".

Segui a orientação. Mais uns 10 minutos de caminhada até achar outro andarilho na mesma avenida. Nitidamente embriagado, ele cambaleava ao tentar atravessar a rua. Aproximei-me lentamente, com mãos no bolso e cabeça baixa. Disse que não era de Joinville e perguntei sobre o albergue. Um olhar distante toma conta do rosto enrugado coberto com uma vasta barba branca. Um boné cinza e velho fazia parte da sua vestimenta que ajudava a esconder, junto com a barba, um senhor de aproximadamente 55 anos chamado Celso. Disfarcei meus sentidos, tentei não prestar atenção no odor incômodo de álcool e suor que o homem exalava. Embaralhando as palavras ele tentou me explicar a localização do albergue. A prosa foi rápida, mas, suficiente para saber que Celso está na rua há mais de vinte anos e que, para enfrentar o frio da madrugada, não bastam cobertores e papelão, é preciso de muitos "goles". Ele dorme em becos próximos ao Mercado Municipal e estava à procura de um banheiro.

Meus dedos clamavam por um calçado fechado. O céu continuava cinza e a caminhada seguiu até o albergue para peregrinos. Antes, passei no restaurante popular de Joinville. Quatro peregrinos conversam após o almoço. Perguntei como funcionava o restaurante e rapidamente passei a dividir risadas e olhares. Dentro da roda, um dos andarilhos dizia que para ficar no albergue é necessário documento de identidade. "Você só pode ficar três dias, mas tem almoço, banho, tudo que a gente precisa", comentou. Ele estava bem vestido: calça e jaqueta jeans, além de um tênis da Nike. “Você tá procurando emprego?”, perguntou outro andarilho que completou: "Hoje é meu último dia no albergue e já consegui três empregos de servente de pedreiro". Para ele, dormir no albergue é bom para evitar brigas e agressões da polícia. A conversa desenrolou e um deles disse sorrindo: “Bom é curtir a praia. Barra do Sul é aqui do lado. Trabalho não é pra mim. Estou nessa vida há 30 anos porque gosto de caminhar”. Ele estava sujo e com os cabelos bagunçados, assim como os outro dois andarilhos que completavam a roda. Todos dormem em casas abandonadas no centro da cidade.

Outro morador de rua se aproximou. "Vou lá fazer o cadastro no albergue, vamos juntos?". Estatura mediana, moreno, barba rala e escura - Ele dormiu durante uma semana em um ponto de ônibus da Avenina Getúlio Vargas e só procurou o albergue por culpa do frio intenso – O homem tirou do bolso uma caixa de fósforo e acendeu um cigarro que ganhou de um dos colegas. Pegou as sacolas, colocou nos ombros, balançou a cabeça como sinal de agradecimento, cumprimentou os amigos e perguntou mais uma vez se eu o iria acompanhar. Recoloco a toca do casado sobre minha outra toca preta. Cuido para esconder os dreads (eles poderiam lembrar da minha aparência de estudante). O albergue Casa Marta e Maria ficava a poucos passos do restaurante popular. Um funcionário nos atendeu. Fomos recepcionados como peregrinos. Ouvidos atenciosamente as normas da casa. Para fazer o cadastro era necessário contar rapidamente uma história de vida. Disse que sou de Curitiba, procurava emprego, mas perdi meus documentos. Como esperado, meu cadastro foi negado. Fui orientado para voltar até o final da tarde com algum documento, ou na falta dele, um boletim de ocorrência em mãos. O andarilho que me acompanhava disse apenas que estava de passagem na cidade, respondeu uma série de perguntas e finalizou o cadastro rapidamente.

Além de peregrino, ele é artesão e já andou por diversos estados brasileiros. Um canivete e uma tesoura são suas ferramentas de trabalho. Seu nome é Jair. O homem faz enfeites com folhas de bananeira. Cada peça custa cerca de 20 reais e ajuda nas despesas com comida, bebidas e passagens. O artesão tem 40 anos e dois filhos, uma de 14 anos, que mora em São Paulo e outro de 19, residente em Balneário Camboriú. A caminhada de Jair pelo país já dura 11 anos e começou após a morte da mãe, quando entrou em depressão e começou a beber. Está em Joinville desde o começo do Festival de Dança. "Geralmente compro um 'litro' (de bebida alcoólica) e divido em duas garrafas para durar mais", disse o peregrino. Conformado com a necessidade da bebida, Jair falou sobre o vício como um segredo para aguentar o frio.

O viajante percebeu que estava usando roupas leves e apenas um chinelo. Com uma receptividade impressionante, ele indicou um brechó, aonde poderíamos conseguir sapatos de graça. Iniciamos mais uma caminhada, até o brechó da Igreja Sagrado Coração. O local estava fechado, seguimos com a conversa. "Tem o pessoal do crack, eles sempre deixam a latinha separada em algum 'mocó', mas eu não ando com eles. Nunca me envolvi com isso. Deus está sempre do meu lado", contou. Geralmente os padres bancam as passagens de ônibus e os bons almoços são servidos em comunidades religiosas, revelou o andarilho. Solidário com o novo colega, ele me explicou como conseguir comida, dinheiro, cortes de cabelo e até fez orientações para que eu não andasse em grupos (para não chamar a atenção da polícia).

Decidimos voltar para o centro da cidade. Os tons de cinza do céu estavam mais escuros. Pés na estrada. Éramos vultos que se aproximavam da materialidade apenas no momento em que dividíamos o espaço da calçada com os seres humanos. Entre gírias e vícios de linguagem, ganhei a confiança do morador de rua. Quase em um monólogo, Jair falou sobre sua vida. Olhos fixados no movimento da rua. Ele nem desconfiou que algumas de suas palavras seriam eternizadas. De maneira gentil, quando questionado sobre minha cidade natal ou família, mudava de assunto. Temia conciliar os trejeitos de um morador de rua com o interesse pela conversa.

Carreguava uma caixa de papelão com uma câmera, coberta por uma camisa velha, uma maçã e duas bananas. Abro a caixa sem Jair perceber, ligo a câmera para tentar captar algum áudio, ofereço as bananas. Jair agradece, mas não aceitou. Falou das dores de estômago e, por alguns minutos, entristeceu um pouco mais o rosto judiado pelas noites mal dormidas. "Bananas me fazem lembrar de quando eu morava em casa. Faz muito tempo que não tomo vitamina. Adorava tomar estas coisas", relembrava o andarilho. O olhar triste permeou outra lembrança: "Ah, que bom saber que vou dormir em uma cama. Faz quase quatro meses que não sei o que é isso". Entre lembranças e conselhos, o tempo esvaiu-se.

Aproximadamente uma hora depois, a Biblioteca Municipal marcou o ponto final da caminhada. Lugar em que o artesão ficou para ajeitar seus artesanatos. Expliquei que precisava de esmola para comprar uma passagem de ônibus. Ele me desejou sorte e, mais uma vez, surpreendentemente, comentou que se estivesse com moedas sobrando me ajudaria na passagem...



quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

"Eu não posso pagar por essa sociedade podre que eles construíram"

Às vezes, notamos em que realidade estamos inseridos quando a raiva toca nossos corações...

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

ANTE O AMOR

Trecho de um dos únicos livros espíritas que lí até hoje, gostei.
Leis Morais da Vida
Divaldo Pereira Franco.
Ditado por Joanna de Ângelis
55
ANTE O AMOR
Quando te encontres semi-vencido pelos problemas que comumente assaltam o homem na trilha da evolução, já experimentando o ressaibo da amargura e do desencanto, ou quando à borda do resvaladouro, na direção do crime e da alucinação, antes da decisão aconselhada pela ira ou pela violência, perguntes ao Amor a trilha que deves tomar e o Amor te responderá com sabedoria como prosseguires, não obstante o céu nublado e os caminhos refertos pela perplexidade e pelo pavor.
Talvez não consigas alcançar a meta da paz que persegues imediatamente nem a logres em caráter mediato-próximo.

No entanto, não desfaleças na tentativa.

O amor te faltará em mansuetude e brandura, paz e esperança.

Todo esse conjunto de valores exigir-te-á grande esforço e aguardarás tempo, a fim de se materializarem, modificando o contingente das realizações habituais.
Apesar da aspereza que a decisão amorosa te exigirá, fruirás desde o início da decisão uma tranqüilidade que decorre da consciência liberada das amarras infelizes do personalismo enfermiço quanto do egoísmo perturbador.
No Amor — Causa primeira de todas as coisas porqüanto a Criação é um ato de amor — se iniciam e se findam todas as ambições, encontrando-se respostas para todas as situações da problemática moral e humana.

Ante. o Amor, a dificuldade torna-se desafio,

a dor faz-se teste,
a enfermidade constitui resgate,
a luta se converte em experiência,
a ingratidão ensina,
a renúncia liberta,
a solidão prepara
e o sacrifício santifica...

Naturalmente o Amor impõe necessidades e valores retributivos, quiçá desconhecidos no momento da doação.
Quando, porém, alguém recebe o magnetismo do amor, sem que o perceba, vitaliza-se, acalma-se, renova-se e ama. Nem sempre devolve àquele que lhe doa a força do amor, não obstante retribui a dádiva esparzindo-a e dirigindo-a a outrem. E isto é o mais importante.

Talvez seja necessário que o teu amor atinja o martírio para alcançar o fim a que se destina. Entretanto, se te negas à doação total, eis que não amas, verdadeiramente, apenas impões transitório capricho que desejas receber transformado num amor que te irrigue e sustente, sem que o mereças, porém.

Desse modo, recorda Jesus, em qualquer circunstância ou posição em que te encontres, e, à semelhança d’Ele, consulta e responde com amor, não fazendo ao teu próximo o que não gostarias que este te fizesse.
O Amor tudo resolve. Experimenta-o desde agora