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terça-feira, 1 de novembro de 2011

Relato sobre uma pauta

Não tenho muito tempo, então meu relato será curto. Hoje, durante a manhã, uma mãe ligou para o jornal para pedir ajuda. O filho estava no hospital, foi atropelado sexta (já havia sido atropelado no domingo passado, mas estava bem). No último acidente ele teve lesões graves no nariz e boca. Estava sem comer o final de semana inteiro, pois os médicos deram alta, mesmo ele estando naquela situação. ...Cansado da dor e do sangramento, ele procurou o postinho, pronto socorro e não conseguiu nenhum informação concreta sobre a própria situação. Depois que chegamos no hospital e falamos com a administração, ele recebeu um encaminhamento para o dentista. O nariz quebrado vai ter que esperar, mas, pelo menos, os dentes, o sangramento e o inchaço na boca será aliviado. Estou começando a carreira e digo que é uma boa ação nada agradável. É péssimo você sentir que o hospital só realizou o serviço em virtude da força midiática. É foda você pensar que ele ficaria alí, sem um diagnóstico descente, se não fosse nossa presença. Também é foda você pensar que estes e muitos outros casos são apenas parte do problema.

31/10/2011

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Somos ou não somos animais?

Esta é a atitude de um animal


Este é a atitude de um ser humano




domingo, 16 de outubro de 2011

Só para lembrar

terça-feira, 19 de julho de 2011

Tenho muito

Tenho algumas cicatrizes, de um teatro que encenei, mas não sou ator
Tenho alguns desenhos guardados em uma caixinha na prateleira, mas não sou bom com o lápis
Tenho algumas medalhas na parede, mas não sou atleta
Tenho alguns livros sobre a escrivaninha, mas não sou intelectual
Tenho alguns amigos, mas não sou popular
Tenho interesses políticos, mas não sou um grande ativista
Tenho alguns parentes, mas não tenho família
Tenho algumas vontades, mas não tenho tanta coragem
Tenho alguns medos, mas não me escondo por completo
Tenho algumas vidas, mas só me lembro desta
Tenho uma paixão que, por este momento, completa as lacunas acima.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Clima Frio e Calor Humano - Relatos





Roteiro, Imagens e Edição:
Marcus Carvalheiro
Estudante de Jornalismo - Bom Jesus/Ielusc
Joinville - SC

Coloque a música e leia.

Coloque a música e leia.




E você tem medo de dar passos
Pois sente-se à vontade de fechar portas
e privar-se de rostos e bocas
que sopram palavras, calor e esperanças

Simplesmente, porque você tem medo da esperança
Esperança é algo eterno e você não gosta do sempre
Você não gosta da rotina

Mas, uma destas bocas, talvez...
Talvez te lembre do gosto da harmonia
Entre calor e música...
Entre liberdade e aconchego

E resta, somente, fechar mais portas
ou, o talvez.

E o talvez consegue ser tão, ou mais doloroso.
Eis a complexidade do ser humano:
Gostar do talvez, da dor e do aconchego.


domingo, 1 de maio de 2011

Resta 1/3


Dia 28 foi meu aniversário. Estou com 22 e ainda não mudei praticamente nada nos ambientes em que vivo. Bate uma certa angústia. De acordo com estudos científicos, passamos 1/3 da vida dormindo. Se a média do brasileiro é de 73 anos, segundo o IBGE, significa que só tenho, aproximadamente, mais 1/3 da vida para tentar mudar algo.

Posso dizer que a última semana me alegrou muito, pois descobri que muitas pessoas perdem tempo para ler as coisas que escrevo, que edito, ou mesmo, que falo.

Vivo me metendo em debates ou intrigas, mas, acredito que isso faz parte. Quanto mais nos expormos, mais vulneráveis estaremos. Gosto das críticas, gosto das intrigas também. Não acredito muito que o ser humano seja capaz de aprender apenas olhando. Sou muito intenso. Acho que as relações humanas e as argumentações orais é que dão vida a nossa sociedade.

Não sei como surgiram estes interesses. Como citei na introdução do portifólio do meu projeto de monografia, acredito que "os pressupostos para a pesquisa somam-se desde minha entrada na faculdade; talvez antes, desde meu primeiro contato com partidos políticos, no ensino médio; ou ainda, desde que me reconheço por ser humano, não batizado (felizmente), ja que minha mãe deixou, exclusivamente para mim, a decisão de fazer parte, ou não, de algum sistema religioso".

Enfim. Estou em formação.

Durante este final de tarde, lembrei que tenho algumas lembranças guardadas na Internet. Uso, acidentalmente, a tecnologia como diário e agenda, já que não tenho tempo, ou não consigo, organizar meus textos. É interessante reler algumas coisas, rever algumas fotos. Lembrar de algumas pessoas importantes.

No final das contas, nossa vida é um quebra-cabeça incompleto. Só terminamos de juntar as peças quando nos despedimos deste mundo. Até o último minuto de vida, acredito que seja possível mudar algumas coisas, por mais pequenas que sejam. Juntamos fotos, amigos, inimigos, amores, animais de estimação e, no final, nossa contribuição são as dúvidas que deixaremos para a posterioridade.









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http://www.fotolog.com.br/ezelg


terça-feira, 26 de abril de 2011

O jornalista herói

Nesta última segunda-feira, na aula de jornalismo comunitário, notei como o nosso núcleo acadêmico adora se referir aos problemas da mídia em terceira pessoa. Sempre citamos os grandes grupos, ou mesmo, os especiais comunitários como "eles". Esquecemos que somos nós, os próprios profissionais, mesmo que focas ou mestres, que mantemos o sistema trabalhista destas redes.

Um certo aspecto narcisista corre na veia da maioria dos jornalistas que atuam no ramo. Não nos consideramos trabalhadores e, muito menos, estabelecemos uma preocupação de nos organizar como tal. É, no mínimo, irônico debater o futuro da sociedade brasileira sem, ao menos, conhecer e intervir em nossas próprias determinações trabalhistas.

Não estou pedindo para que façamos uma revolução proletária dentro da área, no mérito simplista de uma cartilha marxista. Estou indagando estes profissionais e colegas de trabalho sobre a hipocrisia que ronda nosso ramo. Ora, como vamos relatar e denunciar os problemas de nossas comunidades se não conseguimos garantir as ferramentas necessárias para isso.

Seja uma estrutura de qualidade para exercer a função, a liberdade de criar pautas e, consequentemente, do seu desenvolvimento e publicação, ou mesmo lecionar: garantias básicas para o jornalista não ser chapa branca.

Este ciclo vicioso do esteriópipo heróico que permeia a área jornalista toma conta, não só da sociedade de massa, mas, também, das nossas redações, assim como diz Noblat: "Médico acha que é Deus. Jornalista tem certeza!". Por isso pergunto: quantos de vocês, jornalistas, conhecem os representantes do sindicato, da federação? Quantos de vocês já debateram os assuntos referentes aos representantes de nosso nicho?


Mudança?

Vamos começar pelas nossas próprias bases, então.

domingo, 24 de abril de 2011

Sobre a falta de participação

Às vezes, percebo que, em um determinado grupo, muitas pessoas guardam um grande rancor daqueles que tentam mudar o ambiente em que vivem. Falta mais cumplicidade nas atitudes coletivas, tanto em movimentos, como nos ambientes trabalhistas.

Seja qual for o nicho, uma boa ideia, elaborada por um integrante deveria ser analisada pelo grupo, debatida e colocada em prática, pelo mesmo grupo, não somente pelo idealizador. Até mesmo, porque depois do compartilhamento, a proposta pode ser adequada de uma melhor forma.

A análise aqui está meio subjetiva, né? Pois bem, o que quero dizer é que as pessoas criticam mais, e fazem de menos, quando a ideia não surge da suas próprias cabeças. Também sou assim. Quando tenho alguma sacada, não vejo os pontos negativos de primeira. Por isso, a importância do grupo.

Infelizmente, quando o grupo opta por retrair seus críticas (não participando da prática, ao menos) este "idealizador" tende a deselvolver a proposta de forma individual, fazendo com que todo o ciclo da não-participação vire um inferno.

Quero dizer que, quando elaboro alguma proposta, pretendo desenvolvê-la, obviamente, mas quando o grupo não participa do processo, utilizo apenas as minhas referências. Quando a iniciativa se aplica, recuso-me a aceitar críticas de pessoas que não participaram do projeto.

Penso mais ou menos assim: "Ninguém quis ajudar, eu fiz, agora não aceito críticas", infelizmente.

Reconheço que o processo é bem mais amplo. Que as pessoas deixam de participar dos debates não por serem preguiçosas, mas por fazerem parte de um sistema que não valoriza o debate intenso sobre as atividades do relacionamento humano.

Também compreendo que a minha ânsia por ver projetos concluídos faz parte de uma cultura imediatista, da qual também faço parte.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Amor de mãe

Uma estrada de barro repleta de buracos e lama. No lado esquerdo da rua, uma fileira de barracos e casas. O ambiente é úmido e escuro. Atrás das casinhas, existe uma grande vegetação, natural de regiões com mangue. O conjunto de casas é separado da rua por uma valeta que se estende até o final da estrada. As casas têm poucos cômodos, são feitas de madeira, suor e representam a dedicação de pessoas que ainda lutam pela legalização de seus terrenos. A área faz parte de uma ocupação no bairro Jardim Paraíso, em Joinville, lugar em que Evanir Terezinha de Paula reconstróei sua vida ao lado das filhas.

As casas de madeira são simples, mas guardam diversas histórias de vida. Uma delas é a de Evanir, 42 anos, que faz o possível para que seu lar seja um ambiente aconchegante e seguro. Pele morena, cabelos castanhos, camisa de algodão surrada e aparência de uns 55 anos, a mãe mora com suas três filhas: Édina, de 16 anos, Érica, de dez, e Helen, de oito. A menor é a que mais dá trabalho, mas também é a mais carinhosa.

"Quando as meninas não estão no colégio, elas brincam na frente de casa. Não deixo que fiquem na rua. No máximo, qui na frente mesmo", conta Evanir. A mãe não gosta que as gilhas fiquem fora do seu campo de visão. Evanir não trabalha fora, sobrevive da renda do marido, e sua aparência reflete uma pessoa um pouco rustrada por ficar em casa o dia inteiro. O que parece recompensar a mãe é a possibilidade de chamar as filhas, e ouví-las reponder cada vez que o coração de mãe aperta.

A mãe inicia a conversa, mas seus olhares contínuos para a frente da casa revelam a preocupação em deixar as duas filhas menores sozinhas. Parada na porta da sala, a menina mais velha, Édina de Paula, exlica que tenta ajudar a mãe, brincando de escolinha com as irmãs. "A Helen tem problema na escola. Os professores disseram pra mãe que ela entende o conteúdo, mas não consegue prestar atenção na aula. Ela é inteligente, mas não fica quieta", descreve.

Um cheiro de café fresco paira na pequena residência e interrompe a conversa, Evanir vai para a cozinha por uns dois minutos. Logo depois, quando retorna, Evanir senta no banquinho de madeira para continuar o papo. Enquanto isso, Helen corre pela beirada da valeta em frente à casa. Em um descuido, a menina escorrega para dentro da água suja, mas foi só um susto. Evanir leva a criança para o chuveiro e busca uma toalha. A varanda da casa também serve de varal. A mãe procura a toalha para a filha e aproveita para recolher as roupas secas. Passado o contra tempo, Helen se aconchega no colo da mãe e acompanha a conversa com testa franzida, como de quem não entende muito bem do que se trata.

A casa de Evanir não é legalizada, a água vem através de um "gato", e em dias de chuva é quase impossível levar as crianças pra escola por conta da lama. Enquanto enxuga o cabelo de Helen, Evanir relata sua vida. O amor com o qual descreve os fatos aos poucos é substituido por uma espécie de angústia. A tristeza que toma conta do rosto da mulher é resultado de lembranças que envolvem seus outros filhos.

Mesmos com os erros de conjunção verbal, a mãe procura palavras doces para descrever cada centímetro de onde mora. Todavia, o gosto pela casa não é igual à afetividade pelo bairro. "Na verdade, não gosto muito desse bairro. Eu morava aqui quando me casei pela primeira vez. Tive sete filhos com meu primeiro marido. Ele era um homem muito ruim e agressivo", explica. Mesmo com um marido violento, Evanir foi morar no Paraná com a família. Pouco tempo depois, retornou para Joinville. "As coisas ficaram mais difíceis no Paraná. Trabalhávamos o dia inteiro, e as crianças ficavam sozinhas em casa. Às vezes, os vizinhos olhavam os meninos, mas foi lá que eles se desgraçaram", lembra a mãe, olhando para baixo, como se procurasse algum buraco para se esconder. "Acabei me separando e vim morar com os meninos em Joinville. Aqui, pelo menos, tenho outros parentes e conhecidos". Incomodada com a conversa, Helen sai do colo da mãe e vai para a frente da TV assirtir os desenhos do Pica-Pau junto às irmãs.

Em 1998, Evanir voltou para Joinville. Ainda não tinha as três meninas menores, vivia com seus outros filhos. Algum tempo depois, conheceu Guilherme Amorim, com quem teve as meninas. Os filhos mais velhos foram morar sozinhos. "Chegamos ao fundo do poço. Assim que voltei para Joinville, eu já desconfiava que os meninos estavam envolvidos com essas coisas". A Mãe conta que os filhos passavam alguns dias fora de casa, saíam e voltavam sem avisar. "Sabe o que é deitar e ter gente andando em volta da sua casa? É muito triste ver tudo desabando. Até meu filho mais novo (que tinha 13 anos) começou a vender drogas".

Atualmente, Evanir mora apenas com as meninas, mas ainda mantem contato com os filhos mais velhos. Com um olhar mais aliviado, a mãe descreve o que seria uma virada de jogo para a família: "Com o tempo, algumas coisas se ajeitaram. O que falta é uma pessoa que te empurre, sabe? Que te dê a mão quando você precisa. Foi o que um pastor qui da Universal fez".

Abandonados pelos serviços públicos, resta aos moradores da ocupação do Jardim Paraíso aguardar a coorperação de ONGs ou instituições religiosas. "O que meus filhos eram, Deus vai me devolver". O dia escurece mais um pouco, e a vinheta do telejornal indica que os desenhos que entretiveram as meninas haviam terminado. É hora de alimentar as crianças, recolher o resto das roupas e continuar sonhando com um futuro melhor para os filhos.




*Alguns nomes foram alterados para não expor a família.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Animação

Poderia até ser um Ciclo de Cinema:


Valsa com Bashir (2008) - Ari Folman



Waking Life (2001) - Richard Linklater



The Animatrix (2003) - (Andy e Larry Wachowski / Andy Jones / Mahiro Maeda / Shinichiro Watanabe / Yoshiaki Kawajuri / Takeshi Koike / Koji Morimoto / Peter Chung.)



Final Fantasy: The spirits within (2001) - Hironobu Sakaguchi

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Pink Freud

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Fora da rotina

Uma boa experiência.




Mais fotos no Blog do A Notícia - www.an.com.br/retratistas -


http://bit.ly/hgkBTP




terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Verbo suicída

Final de tarde. Barulho da chuva forte no telhado e janelas fechadas. Clima tenso, macabro e escuro. Policiais perto da porta. Madeiras podres. Um chute. Porta aberta. Ambiente repleto de odores e podridão. Um pouco de poeira sobre a mesa. Bananas e laranjas podres dentro de uma espécie de vazo. Moscas em todo o lugar. Cadeiras jogadas no chão. Ambiente úmido. As primeiras luzes das lanternas. Sinais e gestos. Ambiente seguro. Geladeira aberta e vazia. Torneira com goteiras. Água vermelha no chão. Lanterna e, na verdade, sangue. Embaixo da mesa, um corpo. Forte cheiro de carne mofada. O sangue espalhado pelo corpo. Pulsos cortados. Alguns vermes, algumas moscas e muito odor. O silêncio termina. Quebrado por apitos e berros. Fim do desaparecimento. Um suicídio.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Errado e por linhas tortas

Movimentos leves e despretensiosos. Ela tenta esconder os fios brancos entre a franja e seu curto cabelo castanho. No espelho, além do reflexo de algumas rugas, a mulher de meia idade revela um olhar distante, como se, mais uma vez, aceitasse, em sua própria imagem, uma espécie de derrota. Por um instante, recompõe seu corpo, movimenta as costas, ajeita a coluna, olha fixamente para o espelho e decide começar o dia.

As janelas são abertas e, aos poucos, o quarto de casal é iluminado por alguns raios de sol. A claridade do ambiente indica o horário em que a primeira bandeja de remédios precisa ser aplicada e consumida. Maria Eduarda cuidadosamente abre alguns frascos, escolhe algumas pílulas e, ao mesmo tempo, preenche uma colher de chá com uma espécie de xarope. Novamente, a leveza das mãos. Maria Eduarda faz com que seu marido ingira todos os remédios de forma delicada e concisa. Ele não mexe praticamente nenhum músculo do corpo. A simplicidade com que o ato se desenvolve revela um procedimento padrão, repetido há anos.

Todos os dias, Maria Eduarda Vieira sacrifica sua liberdade individual. Tem apenas 35 anos, mas, as rugas e a constante respiração profunda denunciam um desgosto perpétuo pela vida. Aos 23 anos, Maria Eduarda casara com Ricardo A. Vieira. O matrimônio durou cerca de cinco anos. Ao completar 28 anos, Ricardo sofrera um acidente de carro. O Corsa cinza que dirigira fora perdido completamente, assim como, a liberdade de sorrir, chorar, agradecer e curvar-se ao mundo que lhe pregara a maior peça de sua vida. Há sete anos, Maria se dedica completamente ao marido tetraplégico.

Graças a uma parcela da pensão cedida pelo governo, o casal consegue resolver os gastos da casa. Mesmo assim, Maria trabalha cerca de seis horas por dia. Durante este período, o tetraplégico fica praticamente sozinho. Aos 35 anos, a pela morena de Maria encontra-se presa a uma vida dividida pelo compromisso oriundo da paixão e a busca internalizada da liberdade. Maria Eduarda vive longe da família. Seus pais e irmãos moram na cidade de Branquinha, em Alagoas. Maria e Ricardo estão em Joinville desde que iniciaram o namoro, quando tinham apenas 18 anos. A cidade industrial possibilitou a Ricardo, um promissor engenheiro, algumas regalias, que em sua cidade natal, junto à Maria, não seriam possíveis. Todavia, foi também em Santa Catarina, que Ricardo sofrera o acidente. Hoje, o frágil engenheiro vive apenas o que Maria também não vive.

Maria Eduarda sonhava em ser professora, começou a cursar ensino superior na área de letras, mas, a linha torta em que deuz escrevera sua vida adiou o sonho por tempo indeterminado. Atualmente, Maria Eduarda trabalha em uma creche. A paciência com que lida com as crianças diariamente é redobrada em casa, aonde cuida praticamente de outro filho – um filho que, por destino, ganhara uma mãe no lugar de esposa.

O rosto de Maria Eduarda revela um cansaço que pendura há anos na vida do casal. Além de remédios, a mulher prepara a comida, limpa a casa e cuida da higiene pessoal de seu marido. Durante poucos dias do mês recebe ajuda de uma empregada, que além de funcionária, vira conselheira e psicóloga. Não há subterfúgio. A expressão de Maria no espelho todos os dias de manhã revelam a ânsia por uma solução que nem médicos (e muito menos deuz) podem revelar.



Sim, o texto é meu.
Não, a história não é real.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Fragmentos

Santiago

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Uma Joinville de alguns alemães

Artigo que fiz no seminário "Pensamento Social Brasileiro", com o professor Jacques Mick.



Uma Joinville de alguns alemães


O tradicionalismo alemão do norte catarinense vem sendo contestado há mais de 12 anos. Estudos, como o Das Paradies in den Sümpfen (O Paraíso no Pântano, 2004), livro do historiador Dilney Cunha, contribuem para a reconfiguração histórica de Joinville. Na obra, Dilney apresenta documentos que derrubam mitos sobre a cidade, entre eles, a ideia de que o município foi predominantemente colonizado por alemães. Nesse contexto ilusório, irregularidades se perpetuaram durante 150 anos e, hoje, a população da antiga Colônia Dona Francisca assume uma falsa identidade. Há realmente uma sobreposição da cultura alemã sobre todas as outras em Joinville? Ou esse discurso, responsável pelo estabelecimento de um ethos do trabalho, foi endossado por princípios de uma elite?

O predomínio da ideologia alemã no ambiente da construção real da cidade é insustentável, justamente pelo traço cronológico do período de transição entre colônia e república. Mesmo que tarde, em relação a outras regiões, a cidade começou a se desenvolver abrigando imigrantes de diversas origens, como portugueses, holandeses e suíços. Outros fatos, oriundos de documentos do Arquivo Histórico de Joinville, também apontam para a desmistificação do mito germânico. Já em 1804, historiadores revelavam a presença de negros na região de Joinville. Parte dessa herança cultural vem sendo dissimulada pela elite local. Na sua maioria, documentos de compra e venda de escravos são heranças não muito bem vindas pela casta que ainda habita a cidade.

Relatos de 1849, período de criação a Colônia Dona Francisca, deram origem aos estudos de Dilney Cunha. Os dados foram traduzidos por Helena Remina Richlin e, comprovam que a maior parte dos imigrantes da colônia vinha da Suíça. Esse processo de colonização continuou: em 1857 – dos 2.858 imigrantes da colônia, 705 eram suíços, os outros vinham da Bélgica, Noruega e as outras regiões da Europa que, mais tarde, fariam parte da Alemanha. Todavia, oligarquias, tradicionalmente alemãs, conquistaram grande espaço na cidade e, assim, uma falsa identidade começou a ser implantada e expressa em ruas e construções por sobrenomes como Colin, Buschle, Lepper, Krüger, Schultz, Schmidt, Hansen, entre outros.

A ocupação desse território, assim como em toda Santa Catarina, foi realizada por casais ou famílias que vinham aos trópicos tentar a sorte. Esse intuito de aventurar-se no sul dos trópicos faz da imigração deste estado, segundo Caio Prado Júnior, um fato “inverso e singular a todo Brasil”. Esse lugar misturado de outras culturas, além das lusitanas, não interessou o sistema latifundiário. O relevo inapropriado beneficiou, portanto, essas experiências distintas e diversificadas. A produção voltou-se para consumo próprio e o excesso desses produtos começou a estabelecer uma ordem de exportação. Essa lógica deu origem às grandes propriedades familiares (ainda hoje bem demarcadas na região de Joinville). Essa tese também rebate um pouco a ideia de que o país foi colonizado apenas por degredados.

Ainda que tenha se desenvolvido de forma peculiar, Santa Catarina arcou com as mesmas consequências de todo o Brasil. Um país criado a margem de sistemas políticos eficazes, um Estado predominantemente neoliberal onde brechas garantiram a permanência de elos exploratórios e desiguais. Essas ações orientadas por uma experiência histórica mantêm oligarquias, ao invés de gerar planos e políticas que garantam, em níveis realmente representativos, a igualdade social. A lógica do Estamento, segundo Raymundo Faoro, praticado no Império, através de personagens como Condes ou amigos do Rei, assumiu novas características, sendo interpretada, então, por funcionários públicos comissionados. Essa prática assegura estruturas políticas que contribuem para a velha apropriação do público pelo privado. Essa tendência explica, em certa medida, porque neste município grandes mudanças demoram a acontecer no ambiente governista, garantindo assim o aparelhamento da política joinvilense a favor de uma classe social específica.

Com apenas 25 mil habitantes, em 1911, Joinville já havia fundado a Associação Comercial e Industrial de Joinville (Acij), onde seu primeiro presidente foi Hermann August Lepper. Essa união já permitiria às lideranças, uma manutenção permanente do tradicionalismo do setor industrial em moldes legais. Em 1920, o município passou a abrigar 42 mil moradores, mas, a população começou aumentar significativamente em 1960 (com 70,7 mil habitantes). O forte índice foi consequência do desenvolvimento industrial. Com a engrenagem do capitalismo, os centros urbanos foram ampliados. De 1970 a 1980, a demanda por mão de obra fez Joinville aumentar sua população em 87%. Consiste, nesse período, uma forte migração de moradores do Paraná para a cidade dos “príncipes” (A Fundição Tupy destaca-se como uma das maiores incentivadoras desse processo). Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE), estima-se que, hoje, 10% da população da cidade seja formada por paranaenses. Com esse ambiente multicultural, o índice de miscigenação é uma conseqüência que comprova mais uma vez, o discurso falho da identidade essencialmente alemã.

O poder patriarcal se revelou como uma chave para as iniciativas políticas da cidade. O coronelismo, como sua forma original, não alcançou o poder absoluto em Santa Catarina, até mesmo porque, a lógica latifundiária não foi aplicada como no resto do país, mas, os favores e as reprocidades, narradas por Vitor Nunes Leal, foram aplicadas e ainda alimentam a estrutura política do estado. Em Joinville, basta comparar o quadro de ex-prefeitos com o histórico de ex-presidentes da Acij, que inúmeros sobrenomes se repetirão. Fato notório, visto que o coronelismo, nessa cidade, sempre assumiu um caráter específico através de benefícios, isenções fiscais e deliberações para setores específicos. Ainda que alguns sobrenomes não constem mais diretamente em cargos públicos, o sistema implantado até hoje não sofreu grandes alterações. Algumas mudanças ocorrem para manter a hegemonia de uma determinada classe em Joinville e sua representatividade decisiva em setores públicos. Essa administração cultural e pública mantém realmente uma sobreposição cultural fortificada por uma ideia de estamento, evidenciando deste modo, uma cidade alemã, ou melhor, de alguns alemães.

domingo, 23 de janeiro de 2011

V for Vendetta - Intro

O HQ é ainda melhor.
No filme, esta é minha parte favorita.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Clima frio e calor humano

Trecho de um texto que fiz estes tempos, coisa de foca, mas será a base da minha monografia.
A reportagem faz parte de uma matéria sobre os moradores de rua de Joinville.
Estava vestido com trapos. Uma espécie de pesquisa participativa.




Clima frio e calor humano


Cinco minutos. Foi o tempo necessário para encontrar o primeiro andarilho no centro de Joinville. Era uma manhã de quinta-feira fria, fazia 10 graus e chovia fraco. Ele caminhava pela Av. Procópio Gomes, sentido centro, segurando um rádio à pilha bem perto do ouvido. Vestia um conjunto moletom cinza escuro, sujo de poeira e barro. Barba mal feita e aparência de uns 45 anos. Iniciei a conversa e, sem hesitação, o andarilho explicou como chegar no lar Casa Marta e Maria: "Se você for agora, consegue até almoço".

Segui a orientação. Mais uns 10 minutos de caminhada até achar outro andarilho na mesma avenida. Nitidamente embriagado, ele cambaleava ao tentar atravessar a rua. Aproximei-me lentamente, com mãos no bolso e cabeça baixa. Disse que não era de Joinville e perguntei sobre o albergue. Um olhar distante toma conta do rosto enrugado coberto com uma vasta barba branca. Um boné cinza e velho fazia parte da sua vestimenta que ajudava a esconder, junto com a barba, um senhor de aproximadamente 55 anos chamado Celso. Disfarcei meus sentidos, tentei não prestar atenção no odor incômodo de álcool e suor que o homem exalava. Embaralhando as palavras ele tentou me explicar a localização do albergue. A prosa foi rápida, mas, suficiente para saber que Celso está na rua há mais de vinte anos e que, para enfrentar o frio da madrugada, não bastam cobertores e papelão, é preciso de muitos "goles". Ele dorme em becos próximos ao Mercado Municipal e estava à procura de um banheiro.

Meus dedos clamavam por um calçado fechado. O céu continuava cinza e a caminhada seguiu até o albergue para peregrinos. Antes, passei no restaurante popular de Joinville. Quatro peregrinos conversam após o almoço. Perguntei como funcionava o restaurante e rapidamente passei a dividir risadas e olhares. Dentro da roda, um dos andarilhos dizia que para ficar no albergue é necessário documento de identidade. "Você só pode ficar três dias, mas tem almoço, banho, tudo que a gente precisa", comentou. Ele estava bem vestido: calça e jaqueta jeans, além de um tênis da Nike. “Você tá procurando emprego?”, perguntou outro andarilho que completou: "Hoje é meu último dia no albergue e já consegui três empregos de servente de pedreiro". Para ele, dormir no albergue é bom para evitar brigas e agressões da polícia. A conversa desenrolou e um deles disse sorrindo: “Bom é curtir a praia. Barra do Sul é aqui do lado. Trabalho não é pra mim. Estou nessa vida há 30 anos porque gosto de caminhar”. Ele estava sujo e com os cabelos bagunçados, assim como os outro dois andarilhos que completavam a roda. Todos dormem em casas abandonadas no centro da cidade.

Outro morador de rua se aproximou. "Vou lá fazer o cadastro no albergue, vamos juntos?". Estatura mediana, moreno, barba rala e escura - Ele dormiu durante uma semana em um ponto de ônibus da Avenina Getúlio Vargas e só procurou o albergue por culpa do frio intenso – O homem tirou do bolso uma caixa de fósforo e acendeu um cigarro que ganhou de um dos colegas. Pegou as sacolas, colocou nos ombros, balançou a cabeça como sinal de agradecimento, cumprimentou os amigos e perguntou mais uma vez se eu o iria acompanhar. Recoloco a toca do casado sobre minha outra toca preta. Cuido para esconder os dreads (eles poderiam lembrar da minha aparência de estudante). O albergue Casa Marta e Maria ficava a poucos passos do restaurante popular. Um funcionário nos atendeu. Fomos recepcionados como peregrinos. Ouvidos atenciosamente as normas da casa. Para fazer o cadastro era necessário contar rapidamente uma história de vida. Disse que sou de Curitiba, procurava emprego, mas perdi meus documentos. Como esperado, meu cadastro foi negado. Fui orientado para voltar até o final da tarde com algum documento, ou na falta dele, um boletim de ocorrência em mãos. O andarilho que me acompanhava disse apenas que estava de passagem na cidade, respondeu uma série de perguntas e finalizou o cadastro rapidamente.

Além de peregrino, ele é artesão e já andou por diversos estados brasileiros. Um canivete e uma tesoura são suas ferramentas de trabalho. Seu nome é Jair. O homem faz enfeites com folhas de bananeira. Cada peça custa cerca de 20 reais e ajuda nas despesas com comida, bebidas e passagens. O artesão tem 40 anos e dois filhos, uma de 14 anos, que mora em São Paulo e outro de 19, residente em Balneário Camboriú. A caminhada de Jair pelo país já dura 11 anos e começou após a morte da mãe, quando entrou em depressão e começou a beber. Está em Joinville desde o começo do Festival de Dança. "Geralmente compro um 'litro' (de bebida alcoólica) e divido em duas garrafas para durar mais", disse o peregrino. Conformado com a necessidade da bebida, Jair falou sobre o vício como um segredo para aguentar o frio.

O viajante percebeu que estava usando roupas leves e apenas um chinelo. Com uma receptividade impressionante, ele indicou um brechó, aonde poderíamos conseguir sapatos de graça. Iniciamos mais uma caminhada, até o brechó da Igreja Sagrado Coração. O local estava fechado, seguimos com a conversa. "Tem o pessoal do crack, eles sempre deixam a latinha separada em algum 'mocó', mas eu não ando com eles. Nunca me envolvi com isso. Deus está sempre do meu lado", contou. Geralmente os padres bancam as passagens de ônibus e os bons almoços são servidos em comunidades religiosas, revelou o andarilho. Solidário com o novo colega, ele me explicou como conseguir comida, dinheiro, cortes de cabelo e até fez orientações para que eu não andasse em grupos (para não chamar a atenção da polícia).

Decidimos voltar para o centro da cidade. Os tons de cinza do céu estavam mais escuros. Pés na estrada. Éramos vultos que se aproximavam da materialidade apenas no momento em que dividíamos o espaço da calçada com os seres humanos. Entre gírias e vícios de linguagem, ganhei a confiança do morador de rua. Quase em um monólogo, Jair falou sobre sua vida. Olhos fixados no movimento da rua. Ele nem desconfiou que algumas de suas palavras seriam eternizadas. De maneira gentil, quando questionado sobre minha cidade natal ou família, mudava de assunto. Temia conciliar os trejeitos de um morador de rua com o interesse pela conversa.

Carreguava uma caixa de papelão com uma câmera, coberta por uma camisa velha, uma maçã e duas bananas. Abro a caixa sem Jair perceber, ligo a câmera para tentar captar algum áudio, ofereço as bananas. Jair agradece, mas não aceitou. Falou das dores de estômago e, por alguns minutos, entristeceu um pouco mais o rosto judiado pelas noites mal dormidas. "Bananas me fazem lembrar de quando eu morava em casa. Faz muito tempo que não tomo vitamina. Adorava tomar estas coisas", relembrava o andarilho. O olhar triste permeou outra lembrança: "Ah, que bom saber que vou dormir em uma cama. Faz quase quatro meses que não sei o que é isso". Entre lembranças e conselhos, o tempo esvaiu-se.

Aproximadamente uma hora depois, a Biblioteca Municipal marcou o ponto final da caminhada. Lugar em que o artesão ficou para ajeitar seus artesanatos. Expliquei que precisava de esmola para comprar uma passagem de ônibus. Ele me desejou sorte e, mais uma vez, surpreendentemente, comentou que se estivesse com moedas sobrando me ajudaria na passagem...



quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

"Eu não posso pagar por essa sociedade podre que eles construíram"

Às vezes, notamos em que realidade estamos inseridos quando a raiva toca nossos corações...

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

ANTE O AMOR

Trecho de um dos únicos livros espíritas que lí até hoje, gostei.
Leis Morais da Vida
Divaldo Pereira Franco.
Ditado por Joanna de Ângelis
55
ANTE O AMOR
Quando te encontres semi-vencido pelos problemas que comumente assaltam o homem na trilha da evolução, já experimentando o ressaibo da amargura e do desencanto, ou quando à borda do resvaladouro, na direção do crime e da alucinação, antes da decisão aconselhada pela ira ou pela violência, perguntes ao Amor a trilha que deves tomar e o Amor te responderá com sabedoria como prosseguires, não obstante o céu nublado e os caminhos refertos pela perplexidade e pelo pavor.
Talvez não consigas alcançar a meta da paz que persegues imediatamente nem a logres em caráter mediato-próximo.

No entanto, não desfaleças na tentativa.

O amor te faltará em mansuetude e brandura, paz e esperança.

Todo esse conjunto de valores exigir-te-á grande esforço e aguardarás tempo, a fim de se materializarem, modificando o contingente das realizações habituais.
Apesar da aspereza que a decisão amorosa te exigirá, fruirás desde o início da decisão uma tranqüilidade que decorre da consciência liberada das amarras infelizes do personalismo enfermiço quanto do egoísmo perturbador.
No Amor — Causa primeira de todas as coisas porqüanto a Criação é um ato de amor — se iniciam e se findam todas as ambições, encontrando-se respostas para todas as situações da problemática moral e humana.

Ante. o Amor, a dificuldade torna-se desafio,

a dor faz-se teste,
a enfermidade constitui resgate,
a luta se converte em experiência,
a ingratidão ensina,
a renúncia liberta,
a solidão prepara
e o sacrifício santifica...

Naturalmente o Amor impõe necessidades e valores retributivos, quiçá desconhecidos no momento da doação.
Quando, porém, alguém recebe o magnetismo do amor, sem que o perceba, vitaliza-se, acalma-se, renova-se e ama. Nem sempre devolve àquele que lhe doa a força do amor, não obstante retribui a dádiva esparzindo-a e dirigindo-a a outrem. E isto é o mais importante.

Talvez seja necessário que o teu amor atinja o martírio para alcançar o fim a que se destina. Entretanto, se te negas à doação total, eis que não amas, verdadeiramente, apenas impões transitório capricho que desejas receber transformado num amor que te irrigue e sustente, sem que o mereças, porém.

Desse modo, recorda Jesus, em qualquer circunstância ou posição em que te encontres, e, à semelhança d’Ele, consulta e responde com amor, não fazendo ao teu próximo o que não gostarias que este te fizesse.
O Amor tudo resolve. Experimenta-o desde agora